terça-feira, 23 de agosto de 2011

Vexame e penitência

Estava eu reorganizando meus emails da época do trabalho na CVM e me deparei com uma relíquia literária: um relatório de viagem de trabalho, de 18/03/2010, que fiz para o Rio e que foi extremamente marcante!
Achei interessante postá-lo aqui, em edição revista e ampliada:

Ontem, quando cheguei em Congonhas já deu pra perceber que seria um dia de meeerrrrrrrda (com sotaque), pois nenhum avião estava decolando para o Rio, já que lá chovia muito.
Fiquei quase 2 horas esperando pelo meu avião, mas não pensem que foi uma espera de deixar a bunda quadrada. Nããão. Agora a Gol tem um programa de entretenimento para seus clientes! Enquanto eu esperava, participei de uma gincana chamada “caça ao avião perdido”! Era assim: a moça anunciava no auto falante “Vôo 1503, embarque no portão 8” , então todo mundo corria pro portão 8.  Quando ainda estávamos recuperando o fôlego, a moça anunciava de novo “Vôo 1503, seu embarque mudou e será realizado no portão 5” , e assim era dada novamente a largada na modalidade corrida com malas. A brincadeira foi tão a fundo que no fim das contas fomos embarcar no subsolo.
Cheguei na CVM mega atrasada e corri (de novo!esse verbo que odeio conjugar) para o andar aonde fica o auditório. Era óbvio que o treinamento seria lá, afinal todos os dos quais já participei sempre foram ali! A moça da recepção foi super simpática e compreensiva com meu atraso e me deixou entrar na sala sem ter que passar pelos trâmites usuais de conferir nome e pedir para assinar a lista de presença.
Entrei, sentei. Meu superintendente estava lá, me deu um sorriso largo, cariocamente sacana e fez um aceno de mão. Eu me senti felizarda por ter um chefão-mor tão simpático e também tão humilde e engajado.. Imagine só o superintendente de toda a área administrativa, homem de cargo tão elevado, estar ali participando de uma rélis palestra sobre gestão por competências da área de Recursos Humanos! 
Depois eu comecei a me perguntar qual seria a relação entre auditoria do mercado de capitais, que era sobre o que o palestrante ministrava, e gestão por competências...  Que encadeamento lógico de ideias tão fantástico poderia ter conduzido de um assunto a outro?
A coisa toda ficou ainda mais “questionável” quando me dei conta de que não era só o meu superintendente que estava ali... Na verdade, só havia superintendentes, de todas as áreas da CVM!!! E a presidente também!
E quem mais estava, quem? Eu, a agente executiva, a cargo de nível médio! E não bastando isso, ainda era a acargo de nível médio da área meio!!! A base, aliás, o chão da pirâmide se infiltrando na reunião do topo... Isso sim é que é querer subir na vida rápido!
Enfiei minha caneta e meu bloquinho de anotações de volta na bolsa, meu rabinho entre as pernas, meu queixo quase no peito e saí olhando para o carpete do auditório. 
Depois de algum tempo encontrei o andar e a palestra certos. E na sequência meu superintendente me reencontrou lá! Riu bastante de mim e, como é um homem generoso, compartilhou oa razão de toda aquela sua alegria com os demais colegas, para que todos pudessem rir também! 
Como desgraça pouca é bobagem, claro que não seria tão simples ir embora logo para casa e poder afundar minha cara envergonhada no travesseiro. Aliás, vexame pouco também é bobagem... Ainda dava para piorar.
Além de (e apesar de) estar chovendo pra chuchu lá no Rio, estava rolando uma passeata lá no centro.  (Por passeata no Rio entenda-se pessoas com vestes e canções carnavalescas!!!) Conclusão: todas as ruas do centro estavam fechadas! Eu andei aquele centro todo, de salto, na chuva, no meio da muvuca, ouvindo funk, atrás de um taxi.para o aeroporto. E nada.
Voltei para a CVM encharcada e desesperada porque  perderia o voo. Uma das meninas do RH me olhou  com um olhar que ficava entre a dó e a preocupação e me perguntou por quê eu voltara. Eu me desmilingui toda...Comecei a chorar e a choramingar que não tinha como chegar ao aeroporto, ia perder a passagem da CVM, não tinha dinheiro para arranjar outra e nem para a hospedagem.
Sim, já não bastasse ter sido motivo de gargalhadas no RH,de tarde, de noite eu fiquei lá aos prantos feito um bebê! 
Mas expeeerrrrrtox são mesmo os bebês: quem não chora, não mama!  Uma das recepcionistas se sensibilizou com meu pranto e se dispôs a me levar a pé até o aeroporto. 
O aeroporto não é assim tão longe da CVM, mas meia hora de caminhada de salto, na chuva, afundando o pé em milhares de poças de água (e de sabe-se lá mais o que ), cortando multidões de pessoas cheias de plumas e paetês, cantando um funk dos royalties do petróleo faz meia hora parecerem meio século!
Cheguei ao aeroporto ensopada e recebi a notícia de que o Santos Dumont estava fechado por causa da chuva e os voos todos atrasados.
Contei então com a ajuda de outra alma solidária que me encaixou em um voo bem mais cedo do que o meu original. Só que bem mais cedo naquele caso era dali a umas três horas, pois tudo estava atrasado.
Passei aquelas horas perambulando pelo aeroporto, molhada, congelada e esfomeada. Gastei todo dinheiro que tinha em coisas não suficientemente quentinhas, não satisfatoriamente gostosas e exageradamente caras, até que enfim tive a felicidade de entrar em um avião.
Nunca pensei que ficaria um dia feliz de entrar em um... 
Depois de tudo isso só me restou contar tudo na CVM São paulo, antes que a novidade chegasse por malote... Afinal é melhor participar ativamente do que passivamente da piada!

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A Melancolia é Deprimente

Este blog nunca teve a pretensão de versar sobre crítica cinematográfica, mas como,- para desespero de meus amigos, que sempre querem ver algo que eu já vi - o que mais tenho feito ultimamente é ir ao cinema, é sobre filmes que acabo escrevendo. E em geral escrevo desgostando dos filmes, o que me faz parecere uma pessoa amarga.
Hoje, mais uma vez, vim aqui para escrever "falando mal" sobre um filme que assisti, mas enquanto refletia sobre o que ressaltar no filme e o revia em minha mente, fui diminuindo minha antipatia inicial por ele. Trata-se de "Melancolia", de  Lars Von Trier, o diretor dinamarquês que chocou no Festival de Cannes dando declarações esdrúxulas sobre sua (irônica ou não) simpatia por Hitler. Seja pelo título ou pelo diretor do filme já deve ir o espectador preparado para algo não muito animador.
O filme é dividido em duas partes, em duas histórias que, embora tenham as mesmas personagens centrais. A primeira parte trata da melancolia que acomete a personagem Justine (Kirsten Dunst) durante a festa de seu casamento. A segunda parte trata da aproximação do planeta Melancolia, prestes a se chocar com a Terra e causar o fim do mundo (literalmente).
Melancolia, segundo minhas pesquisas "googleanas", enquanto "estado de espírito", é caracterizada pela falta de entusiasmo e de predisposição para a realização de  atividades em geral, acomete costumeiramente pessoas em depressão e não é desencadeada por algum acontecimento específico e concreto. E foi isso o que me incomodou demais no filme. Sem razão nenhuma, num dia que deveria ser um dos mais felizes da vida da pessoa (conforme as convenções sociais), a personagem da noiva, inicialmente radiantemente feliz, vai aos poucos afundando numa apatia sem qualquer explicação.
A falta de explicação para tamanha e tão súbita infelicidade me incomodou muito, embora não por não achar plausível a ausência em si, ainda que eu considere que uma pessoa só deva ficar infeliz por motivos muito concretos e muito contundentes. O que me incomodou foi pensar que de fato existe gente assim, e não é pouca gente . Há muitas pessoas com vocação para a insatisfação repentina ou permanente. Perdem um tempão na vida, se não a vida toda, sofrendo sabe-se lá porquê.
Era esse o caso da primeira história. Num castelo em alguma bela paisagem europeia - realmente a coisa mais interessante do filme é toda sua fotografia -, a personagem afunda-se cada vez mais no desânimo.
Não é de se espantar que essa mesma personagem lide tão bem com o conflito da segunda história, ou seja, o fim do mundo. Enquanto as personagens aparentemente sãs da primeira parte do filme começam a surtar com a fatalidade da aproximação do planeta que destruirá a Terra, a noiva melancólica aceita com frieza e resignação o fim próximo, toma as rédeas da situação e toma pela mão as outras personagens. Bom, é claro que alguém que não vê muito propósito em viver, também não verá muita aflição em morrer. Nem o nascimento de um relacionamento (o casamento) anima, nem o fim de tudo apavora. Tanto faz mesmo. E deve ser bem isso a depressão...
Pensando nessas mensagens discretas na trama, até que o filme não merece ser tão achincalhado como em princípio eu pretendia. Ele ttem uma intenção interessante, embora seja conduzido de modo enfadonho. Tão enfadonho que em certo momento você começa a torcer para que o planeta Melancolia colida logo com a Terra, elimine aquelas pessoas chatamente deprimidas e acabe com o mundo logo (o que no caso equivaleria a acabar o filme), findando a tortura de ter de ficar vendo aquela trama se arrastaaaaando sem que nada de fato acontecesse...  E você torce mesmo para que o mundo acabe! Você não quer que aquelas pessoas se salvem!
Aliás, começo a entender a simpatia do diretor por Hitler... Ele também é adepto á tortura... Psicológica nesse caso! Passei "bons" momentos no cinema me torturando e me angustiando com a dúvida se deveria desistir e abandonar a sala ou insistir e esperar até o final (do mundo e do filme).
Acabei ficando até o fim e vendo o planeta Melacolia destruir a Terra... E agora, ao ir escrevendo esse post e relendo o que escrevi, me veio a pergunta: será que um dia a nossa melancolia destruirá a Terra?
Será que foi isso que Lars Von Trier quis dizer?