quinta-feira, 30 de junho de 2011

Da Imposibilidade de Chorar

Eu gostaria muito de, ao menos nos Bastidores, tal qual dizem os primeiros versos da música de  meu amado Chico Buarque que leva esse nome, poder dizer "chorei, chorei, até ficar com dó de mim". . 
Eu queria chorar pelo fim de um relacionamento, porque todo fim é sempre triste, mesmo quando não é feio. Eu queria chorar pela incerteza de existir um novo começo. Eu queria chorar pelo fantasma da solidão amorosa, que deveria me assombrar. Eu queria sentir  dramáticas sensações intensamente como costumava sentir. Eu queria poder me jogar na cama, abraçar meu ursinho de pelúcia e ficar lá me lamentando por um passado injusto e um futuro sombrio e sofredor. Eu queria fazer previsões desesperadas e apocalípticas típicas de solteironas, amaldiçoando e culpando a sem vergonhice masculina por minha falta de esperança.
Eu queria estar em crise. Porque, na verdade, eu acho que eu deveria estar em crise. Existem momentos pras coisas... No Natal a gente tem que estar feliz, rs. E em momento como esse meu a gente tem que estar triste.
Mas  não consigo chorar, pois não me permito ter dó de mim. Cobraram tanto de mim ser forte e dar força que até esqueci como se faz para se colocar em posição de coitadinha. Eu não consigo mais ter dó de mim. E assim eu não me permito chorar.
Ou eu fiquei forte.
Ou eu já chorei tanto por um mesmo motivo que já se esgotaram as lágrimas destinadas a esse tópico...
Ou eu fiquei fria.
Não sei. "Às vezes eu quero chorar, mas o dia nasce e eu esqueço" ... Ou melhor, às vezes eu quero chorar, mas alguém conta uma piada e eu esqueço... Ou alguma coisa engrada acontece. Ou quem conta a piada sou eu, rs. Começo um dia querendo chorar e acabo rindo. 
Às vezes me pego perguntando se é isso mesmo, se agora eu sou para sempre assim e se isso é sinal de que estou madura.
Depois me acho até meio infantil por ser tão boba alegre.
E por fim me vejo vazia porque existe um apertinho  exilado num cantinho obscuro do peito, para o qual não sai uma lágrima sequer correspondente...
É como se eu estivesse para sempre anestesiada.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Burocrático Neologismo

Reza a lenda que servidores públicos não são lá muito afeitos a mudanças, por isso dizer que algo novo foi criado no seio da burocrática administração pública parece, em princípio, incongruente. Então vejamos:
Foi na administração pública que aprendi a trabalhar um novo verbo: sabonetar! Este é o verbo que todo dia, no mínimo uma vez ao dia, pelo menos algum servidor conjuga. E como tem sempre alguém conjugando, acho que fica melhor eu dizer que aprendi a não trabalhar graças a esse novo verbo... Afinal, mentiria eu se dissesse que se trata de um verbo defectivo. Existe conjugação em todas as pessoas e, repito, todas elas conjugam, inclusive a primeira do singular. Mas esta, meus amigos, em sua real defesa alega que só o conjuga em resposta á conjugação de outra pessoa.
A primeira pessoa do singular que vos fala recorrentemente recebe “coisas” com os simples dizeres “para prosseguimento”, sem que lhe seja dito o que e para onde se deve prosseguir.
Desta forma, já foi até aventada pela primeira pessoa a possibilidade de se etiquetar a lata do lixo com a palavra “prosseguimento” e resolver assim o dilema. Mas depois foi pensada uma solução que numa rápida análise parece mais elegante, embora em essência tenha o mesmo efeito que a primeira aventada, e após algumas linhas falando-se sobre tudo sem dizer-se absolutamente nada, manda-se a “coisa” de volta para o lugar de onde ela veio “à consideração superior”.
E assim, enquanto os interlocutores todos ficam sabonetando, a “coisa” fica petecando por aí !(vejam só, mais um neologismo!) até que alguém decide, já que não quer de fato decidir nada que tenha que escrever e assinar embaixo, que seria conveniente mandar a “coisa” para análise jurídica.
Mal sabe esse alguém (ou bem sabe e justamente por isso o faz) que advogados não têm espírito lúdico e acabam com a brincadeira, dando um incrível sumiço na peteca!
Daí, só te arremessam a peteca de volta uns dois anos depois, quando você nem lembrava mais que estava brincando... A peteca vem com tudo na sua cabeça e aí, com o impacto, ou você acaba se lembrando enfim dela, ou fica com amnésia de vez!
E não, a peteca quase nunca vem redondinha. Atente para o fato de que é uma peteca, não uma bola! Em geral fica concluído algo não muito conclusivo. A decisão do julgamento costuma vir acompanhada de um “salvo melhor juízo”, que é um jeito adiantado de se pedir desculpas pelo que concluiu e se colocar aberto a outras considerações.
E assim seguimos a vida: mente aberta, assuntos em aberto e nenhuma decisão fechada!
E eu estou precisando aprender a conjugar outro verbo: conformar... Modo reflexivo...

domingo, 12 de junho de 2011

Programa de Índio

De que associação lógica saiu a expressão "programa de índio" para qualificar passeios cheios de percalços - ou no mínimo sem graça - eu não sei. Talvez seja uma visão preconceituosa do "homem branco" de que ficar dançando em círculos para a chuva, o sol e sei lá mais que estrela, satélite ou asteróide seja um programa chato. Mas eu lhes garanto que chato mesmo não é ficar dançando em círculos, porque pelo menos se está movendo, e sim ficar, como todo bom "homem branco" paulistano, parado horas e horas em uma fila... Ou o que é pior: andando de fila em fila!
O primeiro "programa de índio" foi no sábado, quando me senti uma típica paulistana, ou melhor, uma típica mendiga paulistana, já que passei um tempão de pé no relento e no frio numa sinuosa fila esperando para tomar sopinha! Não, não fui a um albergue... Isso pelo menos teria a vantagem de ser gratuito! Fui com amigos ao festival de sopas do CEAGESP para comermos aquela deliciosa sopa de cebola gratinada (sim, pagamos para enfrentar fila e depois ainda ficar com bafo)!
Após 40 minutos ao relento esperando a multidão que estava dentro do evento se dignar a ir embora, contando apenas com a piedade de uma simpática mocinha que passava nos servindo vinho como cortesia - o que, aliás, não sei se era por caridade ou para amansar os humores -, enfim passamos para dentro do recinto e nos deparamos com... Outra fila, estrategicamente montada ao lado de um buffet de queijos, pães e patês!!! Desesperadamente esfomeados, atacamos impiedosamente o buffet, de pé, com os pratos na mão. E o buffet atacou impiedosamente nossos bolsos, já que era ccobrado a parte (e que parte grande!). 
Mais 40 minutos de espera por uma mesa... Meu estômago, que ao relento reivindicava de forrma plenameente audível por comida, àquelas alturas não clamava por mais nada (talvez porque já tivesse feito autofagia). Quando enfim conseguimos a tão almejada mesa, foi chegada a hora de ir para a fila que efetivamente era a da sopinha. Havia sopa enfim, porém não cumbucas. E, quando houve finalmente cumbucas (parcialmente limpas), não havia colheres. 
Era tanta, mas tanta gente, que o pessoal do evento não estava dando conta. Até que conseguíssemos que todas aquelas variáveis (mesa, cadeira, sopa, cumbuca, talheres e bebidas) pudessem ser observadas simultaneamente levou um bom tempo... Tanto tempo que eu já estava cansada demais. Comi somente duas sopas (caldo verde e cebola gratinada), porque só de pensar em ter que ficar de novo de pé numa fila eu desanimava...
Claro que não posso dizer que o programa foi ruim, pois quando se está com um monte de amigos qualquer desgraça fica engraçada, mas poderia ter sido bem melhor se tivéssemos chegado lá antes de toda a torcida do corinthian!!!
A moral dessa história, portanto, não é "não recomendo o sopão do CEAGESP", e sim "recomendo que vá cedo", entre 19 h e 20 h, pois, como a noite é uma criança, parece que todo mundo resolve aparecer por lá após as 21 horas. Segundo a moça do caixa, os dias mais tranquilos, a qualquer horário, são quarta e quinta. Quem quiser ir de sexta ou sábado, tem que praticamente ir para jantar na hora do lanche, rs.
E, já que me tornei especialista em programas de índio neste final de semana (embora ainda não tenha descoberto a "etimologia da expressão"), aproveito para dar mais uma dica aos amigos: nunca, nunca, nunca invente de levar sua mãe ao cinema no Dia dos Namorados!!! Pois sim, haverá uma fila kilomêtrica... Kilomêtrica e cheia de pessoas se agarrando!
Por fim, outra dica importante: independentemente de ser Dia dos Namorados, sendo domingo de tarde, não assista a desenhos, pois haverá crianças lá, infinidade delas, todas gritando durante a sessão, jogando pipoca pra todos os lados e "amanteigando"o chão da sala de cinema!
Aliás, se for simultaneamente Dia dos Namorados e final de semana, não vá ao cinema, muito menos para ver desenhos! Não saia de casa!!!!!!! Ou você estará cercado por crianças e por casaizinhos falando tudinho no diminutivozinho com vozinha de criancinha e se agarrandozinho o tempozinho todinho!  Rs.
Apesar de toda acidez irônica, postada aqui só para manter minha fama de má, a verdade é que adorei Kung Fu Panda 2 (mesmo com os berros das crriancinhas e os "nhec-nhec" das poltronas dos namorados)! O desenho é bastante divertido e tem uma "fotografia", rs, muito bonita.
O ensinamento do dia é, portanto: vá comer a sopa no CEAGESP bem cedo e assistir o Kung Fu Panda 2 bem tarde e assim você não terá um programa nem de índio e nem de paulistano!









terça-feira, 7 de junho de 2011

Provavelmente não equivocadas e possivelmente mais felizes - Post Chupim

Já vou logo avisando que a idéia de escrever esse post surgiu quando eu lia a postagem de outra blogueira, no "Adorável Psicose", o qual eu considero mais adorável que psicótico. Não se valham de vossos vastos conhecimentos de vernáculos para me acusarem de plágio, nem tão pouco me acusem vulgarmente de chupim. O que me ocorreu pode ser eufemisticamente chamado de inspiração, que assim fica mais educado.
O grande problema é que me identifiquei em parte com o post da psicótica... E isso de fato é um problema, pois mostra que sou eu psicótica (ao menos) em parte também. Se é que é possível alguém ser parcialmente doido... 
Seria eu então meio psicótica? Mas como alguém pode ser um pouco psicótica? Psicótica, assim como qualquer outro tipo de louca, se é ou se não é. Isto posto, seria então mais acertado dizer que sou meia psicótica? Um lado de mim é psicótico e o outro normal? Não, isso estaria mais para bipolaridade...  Pois é, agora começo a entender porque tem gente por aí que se confunde tanto e sai dizendo que está "meia cansada"...
Aliás, o post inspirador parece que foi inspirado na frustração ao se errar uma conjugação verbal; frustração essa muito bem resumida na frase com a qual me identifiquei - "nada no mundo me deixa mais frustrada e inconsolável do que não acertar"- e que mostra que a auto cobrança da psicótica vai para bem além do campo gramatical...
E foi por isso que me identifiquei. Não só porque minhas entranhas se contorcem quando eu vejo uma virgula separando um pobre sujeito do verbo que ele deseja tão ardentemente conjugar, não só porque internamente eu berro histericamente "não, não e não" toda vez que ouço algum ser proferir um "menas", mas porque sinto imensa vontade de me auto flagelar toda vez que erro, seja grande ou pequeno erro.
E me identifiquei tanto com esse post, justo hoje, porque hoje eu errei. Na verdade não agi por medo de errar e por consequência não pude acertar. Se não acertei, errei. Errei, logo fiquei frustrada e inconsolável.
Pensei que já houvesse superado esse meu recalque do medo de errar ao agir, mas eu estava errada. Fui posta de frente para uma situação e continuei agindo, digo, não agindo da mesma maneira. Por medo de não acertar, acabo errando em não agir. E essa cobrança toda vai bem para além do campo gramatical... Vai para todo o campo intelectaul e vai ainda mais além; vai até o emocional.
Não sei de onde vem essa minha neurose (que, pelo visto, talvez na verdade seja psicose), mas, como bem disse a outra blogueira, enquanto estamos caladas por medo de falar com o sujeito, o verbo ou o tempo errado, haverá outra pessoa rasgando o verbo... Talvez rasgando todas as regras verbais também... Ou não.
A psicótica terminou seu post com "enquanto eu estiver frustrada e inconsolável, elas estarão equivocadas e infinitamente mais felizes". Eu arriscaria corrigir essa frase: Elas (aquelas pessoas que não são tão auto exigentes como nós) falarão o que quiserem, como e quando quiserem, e, graças à bela ciência da estatística, estarão provavelmente várias vezes não equivocadas - e por isso possivelmente mais felizes.
E por falar em erros, não se enganem achando que enfim tive uma epifania e agora minha atitude (passiva) mudará. Saber que toda essa minha auto cobrança por perfeição que tanto me paralisa é errada só me deixa ainda mais furiosa comigo mesma, pois nada me deixa mais irritada do que errar!!! Rs
Eu só gostaria de saber como não fazer amanhã o que fiz hoje.
Ou, o que é mais apropriado, fazer "amanhâ" o que não fiz "hoje"