sexta-feira, 22 de maio de 2015

Bramquela Pigmentada

Não sei se todos sabem, mas uma das piadinhas cósmicas desta vida é que o albinismo é mais frequente na raça negra. E quando nasce uma criança albina numa família negra é comum haver rejeição por parte do pai, o qual acredita ter sido traído.
Também não sei se é do conhecimento de todos que existem vários tipos diferentes de albinismo, causados por mutações em diferentes genes. E, por conta disso, eu sempre defendi a tese, por questão de lógica, de que um casal de albinos só teria filhos também albinos se ambos possuíssem o mesmo tipo de albinismo, ou seja, se tivessem a mesma mutação no mesmo gene. Já, se fossem albinos de tipos diferentes, teriam filhos normalmente pigmentados.
Muita gente desacreditou da minha tese. Agora tenho a prova empírica.
O problema é que agora alguns podem desacreditar da minha fidelidade... Rs
Engraçado que quando Rick (meu esposo, também albino) e eu começamos a namorar, um dia, numa conversa tomando um café no shopping, comentamos sobre o fato de os pais negros de filhos albinos desconfiarem de traição e achamos graça de no nosso caso poder ocorrer justamente o contrário, ou seja, de um filho não albino causar espanto e descrédito por parte das pessoas.
Interessante que, salvo engano, naquele mesmo dia, um cara nos parou do nada no meio do caminho justamente para falar que nós poderíamos ter filhos não albinos, mas que as pessoas ficariam sem entender e teríamos que ficar nos explicando...
Será que era aquilo um sinal do destino?
Na época achei a coincidência bem interessante, porém não lhe dei assim tanto crédito.
Da mesma forma que, quando me descobri grávida, também não dei crédito para a minha própria tese. Para mim era natural imaginar que Ana Luíza nasceria albina. E acho que para o Rick também... Tanto que até compramos carrinho de bebê com proteção UV e óculos de sol para recém nascido...
É que, apesar da minha tese, eu acreditava que Rick e eu fôssemos do mesmo tipo de albinismo. Isso porque existem dois tipos mais comuns, o tipo 1, que é o menos pigmentado, e o tipo 2, que produz alguma melanina. 
Exames feitos na Santa Casa, dentro de um projeto de estudo sobre albinismo, comprovaram que Rick era do tipo 2. E, embora não tenham conseguido aproveitar nenhuma das duas amostras de sangue que extraíram de mim para definir qual seria meu tipo, eu supus que fosse o 2, já que o tipo 1 com certeza não posso ser.
Logo, Rick e eu seríamos o mesmo tipo, o tipo 2. E, consequentemente, Ana Luíza seria albina também. E assim passei 9 meses chamando a menina de branquela...
Então eis que, no momento do expulsivo do parto, a médica, sentada aos meus pés, diz: estou vendo um cabelinho escuro; acho que ela não é albina não! E depois de alguma força, certo suor e muito grito escandaloso, rs, aparece a minha branquela não branquela. Minha Ana Luíza tem o cabelo castanho claro e, pelo menos até agora, os olhos azuis escuros.
Fiquei surpresa.
A questão de ter filhos albinos ou não sempre gerou muita discussão e polêmica no nosso grupo de albinos no Face. E eu sempre entendi e respeitei todas opiniões, inclusive aquelas de albinos que não queriam ter filhos albinos, justamente porque compreendia as razões deles. Só quem sofreu na pele com o sol e com o preconceito sabe como são as coisas.
Meu pai, aliás, era um desses albinos com tal opinião, tanto que, quando soube que eu estava namorando um albino, me disse que seria uma pena porque então eu não poderia ter filhos...
Também não fiquei chateada e também compreendi. Conforme já mencionei várias vezes, a experiência de infância albina do meu pai não foi das melhores...
Porém eu nunca havia pensado em me impor esta barreira. Eu, por me sentir uma pessoa realizada pessoal e profissionalmente e feliz "apesar de albina" (?!), não via porque impedir o nascimento de outro ser que seria como eu. Se o fizesse, estaria implicitamente dizendo que minha vida não era boa no fim das contas. E, como Rick pensava parecido, mantivemos a decisão de ter um filho independentemente do resultado do mapeamento genético feito na Santa Casa.
Acabou que a gestação chegou antes do resultado do mapeamento genético do Rick; e que o meu nem saiu. E assim passamos a gestação com a certeza de que viria uma albininha.
E no meio da gestação eu comecei a ter medo por ela... Medo de como seria na escola; medo de como seria na rua; medo de como eu ajudaria ela a lidar com tudo aquilo que um dia lidei. Não cheguei a me arrepender, mas comecei a temer. Sendo a existência dela já uma certeza, começou a me dar medo imaginar o que ela poderia sofrer.
E eis que agora eu me deparo justamente com outro medo, o medo de que ela ouça algum dia algum comentário idiota pelo fato de não ser albina quando os pais dela o são; medo de que um dia ela duvide de que é nossa filhinha de verdade. E que isso também a faça sofrer.
Enfim, acho que não existe escapatória: os pais sempre terão medo de que seus filhos sofram, porém nunca conseguirão controlar todas as variáveis para evitar todas possibilidades de sofrimento. (E foi justamente pensar assim que me fez não querer controlar a probabilidade de ter um filho albino).
Pelo menos me alivia saber que provavelmente ela terá uma visão normal.
Com a ignorância das pessoas nós teríamos que lidar de qualquer jeito mesmo...
Quanto a mim, agora acho que não sou nem o tipo 1 e nem o tipo 2. Devo ser um dos outros tipos menos comuns de albinismo, para os quais o projeto da Santa Casa não faz a pesquisa de genes...
Em resumo: eu, que era a pessoa mais curiosa e desesperada para saber meu tipo de albinismo, continuarei sem saber. Não sei o que sou; só sei o que não sou.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Meu Parto Normal Humanizado

Bom, pessoal, vou tentar fazer um resumo do meu parto, que ocorreu nesta segunda, dia 04/05/15, trazendo ao mundo a coisa mais linda que já vi e que ainda verei: minha Ana Luíza!
Antes, vale lembrar que a Ana Luíza não virou sozinha pra posição de nascer na época esperada, então, na segunda dia 20/04, fizemos uma versão cefálica externa, procedimento em ambiente hospitalar - e no meu caso com anestesia duplo bloqueio (peridural + raquidiana) - para deixar de ponta cabeça a menininha que estava sentada.
Na quarta seguinte (22/04) comecei a ter várias dores estranhas, às vezes todas juntas, às vezes cada hora uma: cólica, dor na lombar, pontadas na vagina e umas fisgadas, parecidas com câimbras ou choquinhos na virilha, refletindo até o começo da parte interna da coxa, o que atrapalhava para andar e ficar de pé. Logo minha ginecologista obstetra (GO), Dra. Carolina, explicou-me que se tratavam dos pródromos, ou seja, um pré trabalho de parto, uma preparação para o parto.
Fiquei nesse lenga lenga por 2 semanas e já não estava aguentando a dor da virilha, que era a pior.
Na madrugada deste domingo páaa segunda, ou seja, na verdade já dia 04/05, por volta da 1 h da manhã, meu tampão saiu. A partir daí fiquei muito agitada, mesmo sabendo que aquilo não significava nada, que poderiam ainda se passar dias, e não mais consegui dormir.
De manhã até falei para o Rick, meu esposo, não ir trabalhar. Mas na verdade não havia motivo para não ir e ele foi. Logo depois comecei a ter uma dorzinha estranha na lombar, acompanhada de um piriri (lá pelas 7:40). Por volta das 8:15 a dor foi aumentando e eu estava em dúvida se era mais do mesmo ou algo diferente, então ficava no Whatsapp ora falando pro Rick voltar pra casa, ora para esperar mais um pouco e vermos se era mesmo. Só que a intensidade aumentou tão rapidamente e, mesmo depois de tomar banho, não amenizou (ao contrário do que ocorria no caso dos pródromos) que eu comecei a ter certeza. 
Então criei um grupo no Whatsapp com meu marido, minha doula Thaís e minha obstetriz Juliana para irmos acompanhando a situação. Nem elas sabiam se era mesmo o início do trabalho de parto ou alarme falso. Ficaram me perguntando se era contração, se a barriga endurecia, só que eu nunca consegui identificar realmente quando as contrações apareciam, pois sempre achei minha barriga toda dura. 
Enfim, mesmo sem saber se eram contrações ou não, comecei a usar um aplicativo de contagem de contrações para ir mandando as informações de frequência e duração por Whatsapp para o grupo.
As contrações duravam cerca de 1 minuto e eram umas 6 por hora. A obstetriz pediu para avisar quando chegassem em 10 por hora, mesmo que ainda durando 1 minuto em média.
Rapidamente a frequência de contrações aumentava, mesmo se mantendo a duração média de 1 minuto. Rick voltou para casa, para me ajudar a contar as contrações, as quais chegaram rapidamente a mais de 10 por hora, embora não muito mais (talvez umas 12). Todas com pouca duração, só que com a intensidade crescente.
Eu tomava vários banhos e nada resolvia. O Whatsapp da doula parou de funcionar e ela de responder. Fiquei atormentando somente a coitada da obstetriz, a Juliana, que estava retornando de licença gala (chegando ao aeroporto) quando começamos o contato...
Aliás aqui vale um parenteses: a Juliana casou e saiu em lua de mel bem no finalzinho da minha gestação, quando comecei com os pródromos. Na época eu disse para a Ju que falaria para Ana Luíza esperar ela voltar. E eu realmente não queria ser acompanhada no parto pela obstetriz substituta, que eu sequer conhecia. E não é que justamente naquele dia ela estava retornando da lua de mel!
Voltando à minha saga, às 16 h a dor já era muito intensa e eu não queria mais saber de esperar a doula Thaís chegar em casa para me avaliar. 
(A ideia inicial era que primeiro viria a Thaís para minha casa quando o trabalho de parto (TP) começasse, para me acompanhar e chamar a Juliana para me avaliar quando achasse que realmente estava em TP ativo. Tudo isso para evitar de ir pro hospital a toa, em falso TP ou sem muita dilatação, uma vez que este processo pode durar horas ou até mais de um dia.)
Enfim, 16 h eu me rebelei e disse que iria para o São Luíz, porque queria fazer um exame de toque. Eu não conseguia mais ficar sem saber se toda aquela dor significava algo e o quê. Precisava saber da dilatação; precisava saber em que estágio estava a coisa. E no fundo eu tinha certeza que era hora.
Meu sogro veio nos apanhar e cheguei ao PS do São Luiz às 17 h. Fui avaliada pela plantonista: 5 cm de dilatação; meio caminho andado. Coincidentemente a minha ginecologista obstetra, Dra Carol, estava chegando para dar plantão naquele mesmo momento.
E aqui temos mais uma perfeição desse dia que foi todo perfeito. Um dos meus medos sempre foi dar algum problema durante o parto e a Dra. Carol não chegar em tempo para ajudar (lembrando que quem assistiria meu parto seria a Juliana (obstetriz), fcando a médica na retaguarda para eventualidades). Aquela coincidência foi tranquilizadora: ela estaria no hospital.
Meu outro medo era o de não ter disponível quando eu fosse internada a sala de parto humanizado (chamada Delivery Room), que tem iluminação diferente, é bem espaçosa, tem bola de pilates e uma bela banheira, com a qual sonhei por meses(. Eu até pensava em ter a AnaLu na banheira, se aguentasse todo o TP sem anestesia, embora achasse que sem anestesia arregaria logo. Sempre me achei frouxa para a dor).
A sala de parto humanizado estava disponível e eu fui encaminhada para lá! Nesse meio tempo Thaís (doula) chegou e preparou a iluminação e a banheira, mais uns florais, um óleo de massagem e uns paninhos de água fria para me passar no rosto. E assim passamos das 17 h às 20 h: Thaís, Rick e eu naquela sala. Eu na banheira, ganhando massagem na lombar a cada contração e bebendo muita água. Nunca imaginei que aquilo desse tanta sede!
Pouco antes das 20 h a Juliana chegou, avaliou-me e eu estava com 8 de dilatação! :-)
Mas aí eu já estava cansada e pedindo analgesia. Eu só queria um tempinho pra me recuperar...
Então a Dra. Carol apareceu (quando há anestesia a médica tem que entrar na jogada) e as 3 ficaram tentando me convencer de que faltava pouco e eu aguentaria. Mas eu não quis saber de conversa. Então chamaram um anestesista e o orientaram a fazer uma dose bem fraca de peridural, pois não podia ser nada que me impedisse de conseguir andar e fazer força.
Deram-me uma dose de peridural que me deixou com as pernas formigantes e bambas, embora eu ainda pudesse as sentir, e que me tirou toda a dor lombar, a qual eu não aguentava mais. Então fiquei um tempão deitada descansando. Depois pediram que me trouxesse comida e fiz um lanche.
Enquanto isso, embora elas não tivessem me falado, percebi que ficaram monitorando os batimentos cardiacos da Ana Luíza e conversando baixinho. E, pelo que soube depois, elas estavam pensando em um plano B para acelerar o trabalho de parto caso fosse necessário, ou seja, caso os batimentos cardíacos da bebê não se recuperassem... 
Sim, minha gente, por mais que digam que a anestesia não afeta o bebê, é mentira. Os batimentos cardíacos caem. Em geral se recuperam. Mas há o risco de não se recuperarem (bradicardia) e aí ele tem que nascer logo. Por tal razão que as equipes de parto humanizado tendem a desaconselhar as parturientes a usarem analgesia, tentam ajudá-la a retardar ao máximo esse momento, se for o caso, e pedem ao anestesista que a dose aplicada seja baixa.
Eu já sabia disso desde aquele dia em que fiz a VCE (a virada da mocinha), pois os batimentos dela caíram também naquela ocasião. E, assim como naquela ocasião, nessa felizmente também se recuperaram rapidamente. Ufa!
Acho que era quase 22 h quando o efeito da peridural diminuiu e enfim consegui ficar de pé sem 
parecer que tinha tomado todas e fomos recomeçar o TP (ou seja, tive cerca de 2 hs de descanso).
Naquele meio tempo em que estava deitada, minha bolsa, que já tinha começado a vazar um pouquinho antes da anestesia, estourou de vez, até ouvi um poc.
Na avaliação feita a bebê ainda precisava descer mais, então passei a rebolar e caminhar pela sala, mas de forma suave e tranquila. Rick me acompanhava. E a dor na lombar ia voltando...
Creio que lá pelas 22:30, depois de avaliar onde estava a cabecinha da bebê, médica e obsteriz decidiram que era a hora de eu começar a fazer força para o expulsivo.
E aí lá fui eu fazer vários agachamentos a cada contração que vinha. Sim, porque àquelas alturas, a dor forte na lombar já havia voltado (não sei se estaria mais intensa e se restava algum efeitinho da peidural, mas o fato é que voltara e doía muito como antes).
Depois de vários agachamentos resolvemos usar a banqueta de parto para finalizar. Não sei que horas eram... Pareceu anos...
Rick sentado atrás de mim, literalmente me dando o maior apoio, segurando minhas costas. Thaís na lateral pondo bolsinha quente na lombar. Dra. Carol e Juliana na minha frente, sentadas no chão, avaliando a descida da bebê e monitorando seus batimentos cardíacos. E a essa altura a pediatra lá sentadinha na sala esperando Ana Luíza chegar.
Elas começaram a achar que Ana Lu viria só depois da meia-noite e até brincaram comigo que, nascendo em 05/05/2015, todos achariam que foi cesárea eletiva.
Mas eu não aguentava mais e decidi que seria dia 04/05 mesmo e então resolvi mandar ver no expulsivo. Antes estava me contendo, porque sentia, além de uma cabeça no meio da bacia, como se tivesse um cocozão pindurado. Não queria fazer cocô ali... E elas me assegurando de que não havia coô nenhum...
Além disso, o expulsivo sempre foi a fase da qual eu tive mais medo. Tinha medo da dor de sentir o períneo lacerando, caso fosse lacerado. E, pior, tinha medo de ter que ser feita uma episiotomia (corte do períneo para a cabeça do bebê passar).
Enfim, desencanei do cocô e de me conter. E comecei a gritar feito louca a cada força que fazia. Não sei quantas vezes tive que fazer. Foram várias. Por um espelhinho Rick e eu íamos vendo a cabecinha surgindo. E já nos surpreendermos ao ver que o cabelinho era escuro, não loirinho.
A Dra. Carol me perguntava se eu sentia o circulo de fogo, que é como as parturientes descrevem a dor ardência no períneo que sentem nessa fase, mas eu não sentia nada, além da dor na lombar. E isso me dava a impressão de que não estava rolando...
E quando eu já não achava mais que seria naquele dia, rs, às 23:19 Ana Luíza nasceu!
Nem chorou. Estava super acordada, com os olhões abertos. Ali estava a minha branquela, que no fim das contas branquela não era.
Estava toda melecadinha e foi colocada nos meus braços. Com a ajuda de todos fomos nos deitar na cama para esperar o cordão parar de pulsar e a placenta nascer também. Fomos ela, eu, e o cordão ainda nos ligando por dentro. Deitei, ela deitou sobre mim, fomos cobertas e assim ficamos por um tempão. Ela até mamou. Mas antes passou uma meia hora só me olhando fixamente, com os olhôes bem abertos.
Quando o cordão parou de pulsar, Rick cortou. E dali a pouco, numa contração, a placenta nasceu. Nem olhei, mas me pareceu grande, molenga e viscosa. Rs
Tive 2 leves lacerações, as quais segundo a médica nem estavam sangrando, mas mesmo assim fui suturada. Sinceramente não senti nada.
Na terça e na quarta estava com uma dorzinha nas costas, no local da aplicação da analgesia, um pouco de desconforto para sentar, rs, e com uma sensação de ter feito umas 5 horas seguidas de academia... Fora isso, já estava faceira me movimentando bem para lá e para cá.
Hoje que estou editando este post, uma semana após o parto, já está tudo bem. Não sinto nadinha na região pélvica e em nenhum outro lugar e já ando bem serelepe pela casa e pela vida.
Antes de engravidar eu não manjava nada de parto e só achava muito estranho tantas mulheres "terem que fazer cesárea". Para mim não fazia sentido tantas mulheres terem algum problema para parir (bebê grande, quadril estreito, sem contração, sem dilatação, etc). Como é que a humanidade teria sobrevivido por tantos séculos antes do advento da cirurgia cesareana?
E achava mais estranho ainda as cesáreas agendadas (eletivas). Sempre me pareceu muito frio e impessoal escolher um dia e decidir que ali o bebê teria que nascer. Era como, sei lá, marcar o cabeleireiro...
Por outro lado, sempre pensei no parto normal como algo assustador, doloroso, sofrido e que machucaria, pois este é o modo como a nossa sociedade nos coloca a questão.
Quando engravidei e comecei a pesquisar o assunto a fundo entendi a indústria e as razões econômicas (para os médicos e hospitais) da cesárea e a onda de amedrontamento, intimidação e mitos que se colocou na cabeça das mulheres para que elas não quisessem ou não se sentissem capazes de parir seus bebês.
Descobri também que o parto normal era muito mais seguro (sim, por incrível que pareça) e muito mais saudável tanto para a mãe quanto para o bebê. Descobri o parto humanizado. E decidi que era o que queria para mim e para AnaLu.
Tive medo, principalmente no final, muito medo. Tive medo de não aguentar e desistir. Mas quando a coisa começou, por mais que doesse, me senti capaz de dar conta. E dei.
Hoje me sinto feliz porque pude estar disposta para cuidar da Ana Luíza logo que ela veio para meus braços. E me sinto orgulhosa e forte de ter encarado.
Não trocaria um parto normal por uma cesárea nunca. E não me arrependo absolutamente de nada. A dor é intensa, mas é possível enfrentar. E depois que passou, passou.
E, por fim, devo dizer que foi tudo tão, mas tão certinho que até o dia em que ela nasceu foi o idela. Não só pelo que já comentei, como também porque encaixou direitinho a quantidade de dias da licença paternidade do Rick nas férias que ele havia marcado para poder ficar conosco - as quais teve que marcar no escuro, já que não saberíamos quando a mocinha viria.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Eu Gestante

Em março de 2013 casei, para surpresa de algumas pessoas, especialmente as do meu passado mais longinquo, que sempre acharam que eu fosse contra casamento.
E em meados de novembro de 2014, se não me engano, tornei pública minha gravidez, para surpresa creio eu destas mesmas pessoas - e talvez d algumas outras -, que achavam que "a Luciana não gosta de criança, não leva jeito para mãe".
Só porque nunca fui aquela garota que desde novinha ficava falando que se casaria e teria tantos filhos, que ficava fantasiando com o dia do casamento, com marido, se derretendo quando via uma criancinha, e que era bem focada nos planos para si de formação e emprego, logo achavam que me conheciam e poderiam me rotular e definir: não sonha em ser esposa e mãe.
E não sonhava mesmo. Não porque não quisesse, mas porque não poderia colocar como objetivo de vida algo que não dependia só de mim. Ainda mais algo que eu considerava que só deveria ser feito se fosse com certeza e com verdade, não para seguir o protocolo social.
Achavam que eu era contra casamento, quando na verdade sempre fui contra o modo fantasioso como o casamento é visto e o modo irresponsável como ele é praticado. E creio que a mesma observação vale para a questão da maternidade.
Engraçado terem me achado a moderninha independente individulista e talvez até fria, quando na verdade eu sou uma pessoa muito conservadora. Só me csaria tendo a convicção de que as chances de me arrepender e me divorciar seriam mínimas. E só teria um filho se estivesse casada e com um relacionamento sincero, estável e feliz, além de ter condições financeiras para cuidar dela, porque jamais colocaria uma criança no meio de uma situação conflituosa ou de insegurança, fosse financeira ou emocional.
Achavam que casamento e filho não eram importantes para mim. Pelo contrário. Sempre considerei coisas tão importantes que, se não fosse para fazer do jeito que eu considerava certo e responsável, preferiria não fazer. Preferiria ficar sozinha e tentar ser feliz assim do que sair por aí tomando decisões tão importantes com leviandade, ansiedade ou por pressão social, ocasionando a minha infelicidade e a alheia, especialmente a de uma nova vida que eu gerasse e pela qual fosse totalmente responsável.
Neurose, excesso de senso de responsabilidade ou trauma por causa do divórcio dos meus pais, cada um interprete como quiser. Mas eu acho que primeiro temos que cuidar de nós mesmos e de nossas vidas, encontrarmos nosso caminho e nossa felicidade sozinhos para depois inserirmos outras vidas nas nossas; e não as inserir e imputar a elas o peso da responsabilidade por gerar nossa satisfação e felicidade, especialmente em se tratando de uma criança.
E não vejo porque ter esta avaliação racional implica em eu ser uma pessoa fria e egoísta. Na verdade, para mim é precisamente o contrário.
Interessante é que, embora eu nunca tivesse ficado sonhando com um bebê, nem me imaginado grávida, desde a adolescência, não lembro exatamente quando, me veio na cabeça o nome Ana Luíza. Eu teria uma filha, ela se chamaria Ana Luíza e seria taurina como eu. Era como um fato. Só não fazia sentido. 
Em fevereiro de 2014 meu esposo e eu decidimos que eu pararia de tomar a pílula, porque, segundo os ginecologistas, em média o organismo feminino leva 1 ano para voltar ao normal após passar anos acostumado com o anticoncepcional.
Somando esse dado ao fato de que eu sempre tive ovários policísticos (diagnosticados inclusive naquele momento) e um ciclo extremamente irregular, achamos que demoraria bastante para eu conseguir engravidar, então decidimos parar a prevenção e ir deixando rolar.
Em tese eu também deveria estar preocupada e desesperada para engravidar por causa da minha idade, entretanto nunca me liguei nisso. Talvez por causa do exemplo da minha mãe, que me pariu com 35 anos. 
No final de agosto de 2014, descubro eu que estou grávida! E a previsão de nascimento da criança? Fim de abril ou começo de maio. Ou seja: taurina! 
E em janeiro de 2015, depois de muitas ultrassonografias de bebê com as perninhas fechadas, é confirmada a certeza que eu já tinha desde o começo: menina!
Ali estava a minha Ana Luíza taurina, como eu desde sempre intuía que seria, mas de um jeito que eu acho que jamais conseguiria fazer se tivesse planejado. 
E então um novo mundo se abriu para mim. E eu, a mulher considerada insensível e sem vocação para mãe (pela visão de outras mulheres que se acham as atuais - ou futuras - mães perfeitas porque gostam de fazer cute cute e pegar nenês no colo) adentro todo um novo mundo de muitas e muitas pesquisas para descobrir que a nossa responsabilidade pelo bem estar do bebê já começa na escolha da forma de parto. Mas isso é assunto para outra postagem.
Essa é para dizer que eu sempre achei que teria uma Ana Luíza taurina, porém nunca consegui de fato visualizar essa situação. E nem a persegui para fazer acontecer. Sem pressa; sem pressão. Ela simplesmente aconteceu, naturalmente, como eu acho que tudo tem que ser. E, se não for assim, acredito que é melhor que não seja.
E como acredito que tudo tem seu tempo certo, agora é só esperar o tempo dela. Sem pressa, sem pressão.
Ana Luíza taurina vem aí. E no fundo eu sempre soube.