Noite dessas contei para Analu como historinha antes de dormir a história de como conheci, perdi, reencontrei e depois me perdi de novo do meu melhor amigo de infância, que foi também meu primeiro amor, amor de criança. Porem omiti dela o viés romântico, para não suscitar tais ideais tão cedo; deixa eles aflorarem sozinhos... Um dia, Analu e Juliana, fazendo pesquisas na intenet, talvez achem esse post e conheçam a história sem censuras. Um dia, com uns 8 anos, rsrsrs.
Conheci Renato no maternal da escolinha do bairro e nos tornamos inseparáveis, até que meus pais nos separaram, me mudanda de escola para cursar o pré . E depois me mudaram de novo para iniciar o ensino fundamental.
Na nova escola as turmas eram dividdas em A, B e C conforme o nível de desempenho do aluno. Fui admitida de forma glamourosa na turma A, mas logo fui rebaixada para a B e depois para a C por não estar acompanhando bem o processo de alfabetização e aprendizado dos números. Meu problema era de deficiência visual, não intelectual, mas ninguém parou para prestar atenção a isso, é claro, nem mesmo meus pais.
No meu primeiro dia na 1º série C, fui sentada na primeira carteira (como se isso fosse suficiente para um albino enxergar a lousa). O menino sentado atrás de mim começou a chorar porque o lápis dele quebrou a ponta e não tinha apontador. Algumas crianças escarnearam. Eu, que na época me condolecia ainda mais das dores alheias do que hoje, me enchi de compaixão pelo menino que chorava e de raiva dos que zombavam. Lembro-me do sentimento até hoje, pois acho que foi a primeira vez que tive a ciência de o sentir,
Lembro-me também que abri o meu estojo, aquele estojo super moderno dos anos 80, automático, que você só apertava os botões e ele abria sozinho um de seus infinitos compartimentos. Peguei um lápois e me virei para trás para oferecer emprestado ao menino.
Quando nos olhamos, nos reconhecemos familiares, mas levou ainda algum tempo para nos reconhecermos de verdade, não sei quanto, mas, afinal, era muito tempo que não nos víamos! Um ano em tempo de criança é tempo demais.
Tornamo-nos inseparáveis de novo. Inseparável fiquei também da irmã mais nova dele, Cecília, que se tornou também uma amiga muito querida.
Com o tempo fui sozinha entendendo qual era meu problema escolar e qual sua solução: levantar da carteira e ir de pertinho ver o que estava escrito na lousa. E assim acabei sendo promovida de volta ao A. Mas minha passagem pelo C já havia me valido: para reencontrar o Renato e para aprender logo cedo que eu teria que me virar sozinha na vida acadêmica porque nenhum professor me perceberia de verdade.
Voltei para o A, Renato continuou no C, mas nos encontrávamos no recreio e no transporte escolar de volta para casa. E no transporte descobrimos que apenas uma pracinha separava as ruas de nossas casas... E assim nos tornamos amiguinhos de final de semana também. Ele brincava de Barbie comigo e sua irmã só para brincar conosco. Os meninos zombavam; ele não ligava. Eu brincava de brincadeiras de moleque também, só para brincar com ele. Ninguém zombava, só minha vó se preocupava se eu não era sapatão...
Naquela época criança não namorava e ficava vermelha de falar no assunto, por isso era um dos instrumentos de tortura favoritos dos amiguinhos pressionarem os outros para dizer de quem gostavam, porque todo mundo gostava de alguém... Muitas vezes revelávamos o grande segredo nos cadernos de pergunta... E, vou dizer, era um saco ficar caçando as respostas do Renato naqueles cadernos, porque eu me distraia lendo as respostas dos outros e acabava me esquecendo qual número era qual pessoa (e só me entenderá quem regular de idade comigo, rs).
Renato respondia no caderno que gostava de Luciana. Luciana respondia que gostava do Renato. Os amiguinhos de um iam contar pro outro. E todos ficávamos vermelhos de vergonha. No parabéns cantavam "Com quem será" e eu ficava nervosa e envergonhada, porém também secretamente felz, pois significava que era correspondida.
Não existia essa coisa de dar beijo, não existia nenhum traço de sexualização. Eu me lembro até hoje dos meus sonhos românticos com o Renato. Era uma coisa bem meiga e carinhosa: a gente andando de mãos dadas no enorme páteo da escola e os pezinhos fazendo barulho nas pedrinhas cinzas claras que cobriam o chão do páteo.
Com os dez anos as coisas começaram a mudar... Renato começou a se importar com a opinião dos outros meninos e não queria mais brincar de brincadeiras de menina. Também começou a gostar de brincadeiras de moleque mais "violentas" e ficou parecido com os demais moleques da rua, começou a falatr palavrão. E eu comecei a achar ele gorosseiro e chato. E daí nos perdemos de novo um do outro, dessa vez por escolha.
E esse é o final da história do meu primeiro amor, amor de criança, inocente, genuino e gratuito, amor de sentir carinho, cuidado e solidariedade. Embora a lição seja de que muitas vezes o amor acaba porque as pessoas mudam com o tempo e a vida mesmo e aí já não se reconhecem e não se completam mais, obviamente não foi a minha leitura à época. Eu era só uma criança que aos poucos foi se desapontando (sem saber que era esse o nome do sentimento) com um amiguinho e se desinteressando de conviver com ele, trocando pelo convívio com outras crianças. E brincadeira que segue...
Aos 11 anos mudei de escola de novo. E os outros amiguinhos que eu tinha na mesma rua em que Renato morava se mudaram de lá também, para outra rua do bairro. Então parei de ir brincar praqueles lados e nunca mais soube dele, nem da irmã, até o dia em que fiquei sabendo que tinham se mudado.
Ficaram somente as pouquíssimas fotos da infãncia e as lembranças daquele sentimento inocente e doce, do qual me recordo toda vez que ouço "João e Maria" do meu querido Chico Buarque.
"Pra lá deste quintal era uma noite que não tem mais fim"...
Ah, e a irmã do Renato... A Cecília era uma criança cleptommaníaca. Não saíamos da casa dela, ou ela da nossa, sem que ficásemos sem alguma coisa. Eu às vezes relevava, outras revidava. Mas teve um dia em que ela exagerou na dose. Furtou mais de 100 papéis de carta da minha coleção, uma pasta inteira! Só estávamos ela e eu, a pasta inteira sumiu, e ela negava veementemente que havia pego, mas eu sabia. Fui embora da casa dela muito nervosa... No dia seguinte liguei para ela, no telefone cinza de discar lá de casa, e disse: eu sei que foi você, ou me devolve ou nunca mais serei sua amiga. Ela não devolveu. E eu cumpri minha palavra.
Eu tinha dez anos e já naquela época surgiu em mim a raiva que surge até hoje quando alguém mente para mim, menos pela mentira em si e mais pelo que ela significa: achar que sou idiota. Minha raiva, e disso me lembro bem, era porque a mentira dela passava longe do plausível,,, Como achava que eu cairia naquilo: Era ofensivo.
E nunca mais falei com ela. desde aquela época meu coração é mole, mas minha cabeça é bem dura. Demoro a tomar decisões radicais, sou paciente com situações e pessoas, talvez até permisssiva demais, mas quando decido, é definitivo. Desde os 10anos.
Ah, e a irmã do Renato... A Cecília era uma criança cleptommaníaca. Não saíamos da casa dela, ou ela da nossa, sem que ficásemos sem alguma coisa. Eu às vezes relevava, outras revidava. Mas teve um dia em que ela exagerou na dose. Furtou mais de 100 papéis de carta da minha coleção, uma pasta inteira! Só estávamos ela e eu, a pasta inteira sumiu, e ela negava veementemente que havia pego, mas eu sabia. Fui embora da casa dela muito nervosa... No dia seguinte liguei para ela, no telefone cinza de discar lá de casa, e disse: eu sei que foi você, ou me devolve ou nunca mais serei sua amiga. Ela não devolveu. E eu cumpri minha palavra.
Eu tinha dez anos e já naquela época surgiu em mim a raiva que surge até hoje quando alguém mente para mim, menos pela mentira em si e mais pelo que ela significa: achar que sou idiota. Minha raiva, e disso me lembro bem, era porque a mentira dela passava longe do plausível,,, Como achava que eu cairia naquilo: Era ofensivo.
E nunca mais falei com ela. desde aquela época meu coração é mole, mas minha cabeça é bem dura. Demoro a tomar decisões radicais, sou paciente com situações e pessoas, talvez até permisssiva demais, mas quando decido, é definitivo. Desde os 10anos.