quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Breviário - A Gota D'água



Passei quase minha infância toda ouvindo Roberto Carlos e Chico Buarque - além, é claro, de Xuxa, rs. Um era o ídolo da minha mãe e o outro o do meu pai. E foi assim que peguei trauma pelo Roberto e fascínio pelo Chico.
Toda vez em que acho que já conheço o bastante sobre a obra dele, acabo descobrindo outra nova. Nova para mim,  porque a que descobri ontem é já antiga. Pensava que "Gota D'água fosse "apenas" mais uma daquelas canções compostas por Chico na época da ditadura que podiam estar falando tanto de amor quanto de política. Mas não; é uma peça. Inspirado num roteiro feito por um tal de Oduvaldo Viana Filho para a televisão em 1975, Chico Buarque, junto com um outro tal de Paulo Pontes, escreveram uma versão brasileira para a tragédia Medéia, de Eurípedes, e assim nasceu a peça teatral Gota D'água, a qual assisti ontem e que me impressionou muito.
Assim como na música, também na peça fiquei sem saber se falava-se de amor ou de política... Sem dúvida falava-se sobretudo de amor, mas um amor distorcido, enloquecido, enraivecido pela rejeição, vingativo e egoísta. Mais um desses ditos grandes amores que, ao meu ver, é outra coisa, que não amor.
Creonte é na peça Creonte mesm, mas, em vez de Rei, é empresário do ramo imobiliário. Jasão, o "herói" é também Jasão, só que o argonauta da tragéedia grega dá lugar ao malandro sambista carioca. Só mudam na peça os nomes das personagens femininas da tragédia. A filha de Creonte, que conquista e desposa Jassão, é Alma em vez de Glauce. E a vítima da decepção sentimental e da mágo intratável é agora Joana e não mais Medéia.
Tenho cá para mim que mudar os nomes das personagens femininas foi uma forma de aproximar a história da realidade nacional, ao mesmo tempo que preservar os nomes das personganes masculinas tinha como fim apontar para a inspiração original.
Alguns detalhes na história original da tragédia foram mudados, creio que para deixar a história mais verossímel, já que não nos conformamos mais com o fantástico. Mas a essência da tragédia é a mesma, porque esta sim pode ser grega, brasileira ou ter qualquer outra nacionalidade. Existem muitas Medéias - e eu diria também "Medéios" por aí.
Cansamos de ver estampado nos jornais e alardeado nos programas de TV fins trágicos para vinganças de pessoas inconformadas com o término de seus relacionamentos, movidas pelo rancor que é o avesso do amor que foi ferido. Ou, o que eu de fato penso, do amor próprio que foi ferido...
A versão carioca de Medéia se passa numa comunidade pobre do Rio de Janeiro e os diálogos das personagens combinam modos de dizer vulgares, para demarcar bem a que classe a criatura pertence, com belos versos que transbordam a sabedoria de vida daquele povo e permitem um contato com o íntimo da sua alma. 
A peça me arrepiou por diversas vezes e me fez pensar em um monte de coisas, a ver com amor, com política, com sociedade e classe social, com carater, e tantas outras. Mas não posso falar mais ou acabo contando tudo - mesmo que seja o "tudo"na minha visão. 
A montagem a que assisti ontem está em cartaz até o dia 29/11 no Teatro Coletivo, na Consolação. Como já disse no Facebook, eu mega recomendo!

sábado, 5 de novembro de 2011

Wuthering Heights - O Morro dos Ventos Uivantes

Minha mãe compra livros pela Revistinha da Avon. 
"O Morro dos Ventos Uivantes" veio a tona na mídia por ser "o livro favorito de Bella e Edward", as personagens principais e românticas da vampiresca e juvenil saga Twilight, ganhando assim mais uma reedição.
Esta reedição virou oferta do catálogo da Avon.
E foi essa conjunção do universo que fez com que o famigerado romance viesse parar em minhas mãos. Quando me deparei com a obra, o que me estimulou a ler foi pensar que um clássico sempre precisa (e espera-se que também mereça) ser lido. Somente uns segundos depois,  ao ler na capa, em destaque num escandaloso balão vermelho, a informação de que aquele era o livro favorito do casal adolescente fictício do momento, é que entendi a sequência de fatos que tinham feito com que aquele livro chegasse até mim.
Ao longo do livro entendi porquê tal rromance é o predileto dos pombinhos tétrricos: a trama tem como base um intenso e passional amor entre as personagens Catherine e Heathcliff , repleto de rompantes sentimentais e de frases de exarcebação daquele sentimento e daquela profunda e eterna ligação, tais como "Oh, meu Deus, é impossível! Eu não posso viver sem a minha vida! Eu não posso viver sem a minha alma!".
Claro que interpretação cada uma faz a sua e que nunca saberemos o alcance da mensagem que a britânica Emily Bronte quis passar em 1848. 
Claro também que há uma série de interpretações difrentes passeando pela internet. Há inteerprretações sociológicas, indicando a sugestão de um possível incesto na história, já que talvez Cathy e Heathcliff possam ser meio irmãos, o que era chocante para a sociedade da época (e creio que para a atual também não seja uma idéia confortável), sem falar na crítica ao casamento por conveniência.
Há também a interpretação psicológica, segundo a qual Heathcliff representaria o id, Cathy o ego e Edgar, o coitado do bom moço de boa família com o qual ela se casou, o superego. Por esta análise, o livro mostraria que o ego  não pode viver se não conseguir harmonizar o id e o superego.
Quando li o livro, pensei em várias coisas, mas confesso que em nenhuma dessas. Por nenhum instante sernas entrelinhas que Heathcliff, o órfão adotado pelo pai de Cathy, pudesse  ser filho ilegítimo daquele. Tal desconfiança nem passou por minha cabeça. Assim como nem pensei em "alegorias para consciente e inconsciente".
A primeira coisa que pensei foi que aquele romance nada tinha de romântico, considerando a conotação que damos a esta palavra. Aquele amor todo visceral que une as personagens principais e que a Bella e seu namorado sanguesuga consideram tão belo me pareceu mais paixão do que amor, porque é passional, destrutivo  e vingativo, fonte de desunião, completamente doentio e quase loucura. Um "amor" que, em não sendo vivido, só alimentou ódios. Alimentou o ódio de Heathcliff, que lhe deu desejo de vingança. E a sua vingança alimentou muitos outros ódios. 
Entretanto, todo esse ódio - e aí vem o que particularrmentee sobressaiu da minha leitura - nasceu bem antes da decepção amorosa; o ódio nasce na forma como o pai de Catherine educa seus filhos legítimos (ela e o irmão Hindley) e  o adotivo Heathcliff. Essa forma de criação cria inimizades e rancores esses que posteriormente influenciam a impossibilidade da realização do amor dos "irmãos de criação" (ou meio irmãos?). E dali surgem pessoas amarguradas, que passam sua amargura para as geraçõe seguintess, por meio da criação truculenta, alimentando e fomentando ressentimentos.
Isso me fez pensar bastante em como o modo pelo qual criamos nossos filhos influeencia suas personalidadees e determina a forma como eles reagem frente ao mundo. Ali foi um erro quee desencadeou uma série de outros erros sucessivamente...
Nesse sentido, o final do livro traz um acalanto para a alma: traz a esperança de que a nova geração pode mudar o trriste curso determinado pela anterior, desde que consigam extrapolar o limite dos ressentimentos vividos e absorvidos que traz frieza e rudeza à alma.
Há também aquele ensinamento de que a fome de vingança, mesmo depois de ser alimentada, não traz satisfação. Heathcliff buscou por toda sua vida a vingança a todas as gerações das famílias de Catrherine e de seu marido Edgard, mas a sua realização não lhe trouxe satisfação à alma, e sim apenas consumação, até a morte.
E na morte ele reencontrou Catherine... Romântica idéia de amor eterno? Não sei não, já que o livro termina com a insinuação de que eles se tornaram duas almas vagando juntas pelo Morro dos Ventos Uivantes. Não me pareceu que tenham se encontrado e vivido seu amor em paz na eternidade, e sim que, mesmo juntos, continuavam atormentados (e atormentando outras vidas, rs).
Por isso que para mim, que me desculpem Bella e Edward, aquilo não era amor e tão intenso que para além da vida. Era diferente, uma coisa desmedida, que impediu que eles vivessem e que maculou muitas outras vidas.
Como um sentimento que só gera maus sentimentos pode ser em essência virtuoso?
Mas esta, é claro, é só a minha interpretação.