terça-feira, 27 de março de 2012

Na foto passada ou no espelho de agora?


Estava revirando meus arquivos de backup do meu aposentado e convalecente desktop e me deparei com um dos textos que escrevi para o meu "profile" do Orkut.
Fazendo um paralelo com a trilha sonora dessa postagem, não sei se me reconheço mais na foto passada ou no espelho de agora. Não sei se aquelas duas imagens são ainda a mesma pessoa. E, se não forem, também não sei dizer qual é a melhor e a pior.
O texto foi escrito, se não me engano, um pouco depois que sai daquele meu trabalho que me trouxe tanto sofrimento, suposto  aprendizado e tantos questionamentos éticos-morais (como os do post anterior). Na conclusão do dito cujo lá dizia eu "Portanto, inocência perdida, mas creio que equilíbrio encontrado".
Quanta inocência... Se existe a inocência arrogante dos jovens, que, mesmo sem ainda terem vivido nada, acham que tudo sabem e tudo podem, existe também a inocência arrogante daquele que se julga maduro porque viveu alguma coisa, alguma coisa sofreu e julga que algo aprendeu de modo definitivo e imponderável.
Eu sábia e arrogantemente discorria  a lição de vida:
"A mesma de sempre de fora para dentro, mas já outra de dentro para fora.
Sentimentos grandes muitas vezes acabaram me levando a ter atitudes muito pequenas.
De todo modo, tenho orgulho de tudo que errei. Orgulho porque aprendi com os erros.
E mais orgulho ainda porque sei que sempre errei pelos motivos certos.
Não retroagiria, não reescreveria e nem me reinventaria."
Hoje não tenho orgulho de nada, especialmente porque já não sei se sou a mesma de dentro pra fora, de fora pra dentro, ou outra coisa qualquer.
Se já não sou igual, o que mudou? Se ainda sou, o que ficou? As virtudes? Ou os vícios?
Agora humildemente respondo que os meus 30 anos vividos e sofridos não são o bastante para eu saber responder. Muitas vezes tenho a impressão de que mudei completamente. Mas outras, tenho a impressão de que continuo a mesma, sempre cometendo os mesmos erros, sempre tendo os mesmos defeitos.
As vezes me parece que maturidade é tomar consciência dos próprios defeitos - e não conseguir de fato mudá-los. E ter consciência deles e da incapacidade de mudá-los é mais doloroso do que não ter consciência.
A ignorância e a juventude são uma bênção.
Creio que a única coisa que ainda se aproveita daquilo que escrevi quando achava que estava tendo uma epifania de amadurecimento foi que  "Não importa como os outros me vêem, importa como eu vejo a mim e se estou satisfeita comigo. Importa mesmo é quem me faz ver a mim e ao mundo de uma maneira melhor. Importa mesmo é quem desperta em mim os melhores sentimentos e me faz desejar ter as melhores atitudes."
Hoje desejo muito ter os melhores sentimentos, as melhores atitudes, ser alguém melhor e quem sabe poder responder à tal pergunta...
Terminei aquele meu texto exaltando meus defeitos como se no fundo eles fossem grandes qualidades: "De gênio ruim, sangue quente, coração bom e alma boba alegre"!
Hoje não sei mais se gênio ruim e coração bom não são simplesmente coisas que não podem coexistir.
E que sorte que não tem isso de "profile" no Facebook, porque hoje, sinceramente, eu  não saberia o que escrever!
Tenho uma amiga carioca que sempre posta no Face que caminhou, caminha ou caminhará na orla para refletir sobre a vida.
Eu, como boa paulista, pelo jeito terei que caminhar no shopping para refletir sobre mim!

Ser amigo ou ser colega?

Estava fazendo backup do meu desktop e encontrei um texto nerd-deprimido de meados de 2008, quando tive muitas experiências complicadas no meu ambiente de trabalho, quando descobri que as pessoas eram piores do que eu imaginava e que eu mesma não era tão boa quanto supunha.
Hoje posso dizer que continuo a mesma da época em que escrevi esse texto - se não um pouco pior -, mas a dúvida que nele torturava já não tortura mais.
Um dos poucos, se não o único, dos defeitos que tenho que já nem me incomoda mais é pensar da maneira que eu pensava naquela época quanto a relacionamentos humanos.
Bom, relendo o texto, eu na verdade o achei uma porcaria, rs, mas como faz tempo que não posto nada aqui, vai isso mesmo.


Ser amigo ou ser colega?


Faz tempo que tenho me pegado num dilema pior do que o dilema hamletiano: ‘Ser amigo ou ser colega”?
Para poder optar entre um e outro, era preciso que eu primeiro entendesse qual a essência de cada um deles, então, é claro, recorri ao maior oráculo pós-moderno que conhecemos: o Google!!! O oráculo mostrou-me que a Wikipédia tem sempre mesmo a resposta para tudo e foi lá que descobri o que parece ser a definição socialmente aceita dos dois termos:
          “Amizade (do latim amicus; amigo, que possivelmente se derivou de amore; amar, ainda que se diga também que a palavra provém do grego) é uma relação afetiva, a princípio sem características romântico-sexuais, entre duas pessoas. Em sentido amplo, é um relacionamento humano que envolve o conhecimento mútuo e a afeição, além de lealdade ao ponto do altruísmo. Em sentido mais estrito, são chamados de amigos aquelas pessoas com quem se costuma realizar atividades recreativas, tais como esportes, jogos diversos, sair à noite; ou no contexto dos adolescentes, aqueles com os quais se dão melhor na escola. Muitos apontam nisso uma confusão entre o conceito de amigo e o de colega, este sim um tipo de pessoa com o qual não há fortes laços de companheirismo, apenas interesses afins”.
          Foi então que descobri que, pelo menos na teoria, o meu Código de Ética da Amizade não estáva tão desatualizado, conservador e retrógrado quanto eu andei pensando que estivesse...
          Mas o meu lado racional que busca sempre a verdade por meio da constatação empírica - criado e alimentado nos anos matemáticos da faculdade de economia - me faz pensar em milhares de testes de observância que corroborassem a tese da Wikipédia. Passando da análise semãntico-social da essência dos termos para a análise científico-sociológica do comportamento social vigente, conclui que, ou minha amostra anda meio viesada, ou a teoria não é confirmada pela prática...
          E isso me fez pensar que talvez a língua precise mais que de uma reforma ortográfica; talvez precise de uma reforma semântica, pois, do que foi definido pela Wikipédia, parece que ultrimamente sobrou mais o sentido extrito do termo amizade do que o sentido amplo.
          Outra hipótese é de que a amizade em si, como termo, continua sendo a mesma, porém sua frequência de ocorrência diminuiu, tendo aumentado a prática social extrita do chamado “coleguismo”. Nesse caso, a língua não precisa de reforma semãntica; quem precisa de reforma sou eu... e então eu volto a meu enigma: “Ser amigo ou ser colega, eis a questão”.
          Para mim, que só conheço o sentido amplo - com seu amplificado sentimento - do termo amizade,  a categoria coleguismo fica parecendo uma pseudo amizade e, como é bem sabido (se é que a semântica não andou mudando mesmo), pseudo é indicação de algo que é falso, que é enganoso, como uma imitação do que é verdadeiro.
          Talvez eu esteja sendo muito restrita e deva relaxar a hipótese do que significa o prefixo “pseudo” assim como do termo amizade, para encontrar um intervalo de aceitação maior para as relações sociais observadas empiricamente. Então, aceitando que “imitação da verdade” não é uma coisa falsa e sim uma “meia verdade”, posso dizer que o coleguismo é uma “meia amizade”.
          Só que meia amizade, para mim, acaba sendo uma amizade pela metade, uma amizade em que eu não posso ser inteira, porque não posso falar toda a verdade. E eu não sei ser de outro jeito se não for sendo inteira... Eu inteira já sou tão pequeninha, como eu posso ser de mim somente a metade?
          Sendo amiga pela metade eu me sinto sendo uma pseudoluciana. Sendo pela metade eu me sinto como não sendo nada... E, sendo pseudoeu, só consigo interpretar o pseudo com o significado de “falso”, e não consigo acalmar minha consciência dizendo que é um “quase verdadeiro”.
          De tantos auto questionamentos éticos e crises de consciência por ter tentado nos últimos tempos abstrair o termo amizade e praticar o coleguismo, só posso concluir que realmente, nem com Google e Wikipédia, eu aprendi o que é ser colega. Porque, se eu fosse colega, não me pegaria me preocupando tanto com os sentimentos de outras pessoas e me questionando tanto com minhas atitudes quanto a elas.
          Então, para a minha questão só existe uma resposta: ou eu preciso desistir mesmo quando não der para ser amigo ou preciso enfim aprender a ser colega...