terça-feira, 18 de abril de 2017

Tem Mais Pão no Forno

Eu sou filha única. Meu pai é servidor público.
Eu sempre pensei que, se tivesse filho, teria um só. Aliás, uma filha. Loira, taurina e chamada Ana Luíza. E eu seria servidora pública.
Basciamente: repetindo o modelo.... Na verdade querendo repetir apenas parte dele, a parte que eu considerei correta.
Minha infância foi muito feliz, sem solidão, já que eu tinha muitos amiguinhos, e sem grandes perrengues financeiros, afinal meu pai tinha segurança no emprego e, embora não ganhasse grandes coisas, só tinha uma criança para sustentar, então podia me dar/proporcionar várias coisas.
Já minha adolescência foi uma desgraça, especialmente do ponto de vista financeiro, já que meus pais se divorciaram e aí meu pai arranjou outra família pra sustentar.
A soma das duas experiências, creio, me transformou numa pessoa com a ideia fixa de ter apenas um filho, para que eu pudesse me dedicar inteiramente e exclusivamente e para que nada nunca lhe faltasse. E, na minha concepção de quem sempre foi classe média, não podem faltar pro filho coisas que, na verdade, não são essenciais e imprescindíveis. Não podem faltar passeios, não podem faltar cursos, não podem faltar viagens, cada um tem que ter suas coisas, sua privacidade, seu quarto. Enfim, não pode faltar tudo que eu tinha até o "advento" do divórcio e que abruptamente foi tirado de mim. Tudo que é mais fácil prover para um, do que para dois.
E eis que, de repente, eu me descubro novamente grávida. AnaLu não será filha única. E toda minha concepção de como é a vida que tenho que dar pra minha filha ficou abalada. Todos os planos, que já estavam prontinhos desde sempre, talvez tenham que ser alterados, adiados ou esquecidos.
Sempre tentei ser responsável e sempre gostei de previsibilidade. Nunca deixei que decisões importantes na minha vida fossem tomadas pelo acaso. Não sou do tipo que deixa a vida fluindo pra qualquer lado e que depois chama as consequências de vontade divina. Uma gravidez inesperada não combina comigo.
Aliás, sempre achei absurdo gravidez inesperada. Afinal, gravidez é consequência de sexo sem prevenção adequada, não é algo fora do nosso controle.
Agora acabei de descobri o que eu já sabia: mesmo se prevenindo, se não fizer direito e com rigor, uma única chance vira oportunidade para ser surpreendida. Estranha estatística essa...
Eu fui tão leviana, mas tão leviana, que não combina comigo. Então fico pensando se não foi ato falho, se não foi o meu incosciente (subconsciente?) que boicotou a cartela do anticoncepcional e se lá nas entranhas da minha alma eu não tenha decidido ter mais um bebê.
Essa é uma ideia que me conforta, assim como á maioria das pessoas conforta a ideia da vontade divina. E, cá entre nós, tanto uma como outra pode bem ser verdade, ou pode bem ser mentira.
O motivo não importa, porque o passado agora não faz diferença. O lance é o futuro, esse futuro que eu nunca tinha imaginado e que ainda não consigo visualizar.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Meu Bebê Não Dorme Como Um Bebê

Sempre ouvimos a expressão "dormi como um bebê" pra descrever um sono longo, tranquilo e profundo. E daí crescemos imaginando que os bebês são seres que dormem quase o tempo todo, despertando apenas para mamar.
Então parimos e descobrimos que o nosso bebê não dorme como um bebê. Ele reluta para pegar no sono, tem um sono barulhento e agitado, desperta com sons que nem os cães são capazes de ouvir e demora muito a voltar a dormir, se é que volta.
Depois descobrimos que o nosso bebê não dorme como os outros bebês. E que os outros bebês, eles sim, dormem como bebês de verdade. Todos os bebês de todas as mães que conhecemos dormem a noite inteira desde a primeira semana de vida.
Então está resolvido o mistério: a culpa é nossa. Estamos pondo pra dormir muito cedo. Ou muito tarde. Estamos deixando o bebê fazer sonecas muito longas durante o dia. Ou não estamos permitindo que o bebê descanse o suficiente de dia e isso atrapalha o sono noturno. 
Com certeza o leite materno é o problema chave. Ele pode até estar engordando e crescendo, mas, mesmo assim, sem dúvida, o problema do sono é fome.
Bebê tem que ser posto ainda desperto no berço e aprender a adormecer sozinho, nem que leve horas, chorando. Ou, na verdade, bebê tem que dormir com os pais para se sentir seguro e protegido; cama compartilhada é a resposta.
Depois dos 3 meses as cólicas, que ele tem sempre e por culpa do que você comeu (porque toda vez que o bebê chora é cólica), passam  o sono melhora. Não, depois dos 6, quando ele iniciar a introdução alimentar. Na verdade, quando começar a andar e gastar energia. Ou talvez depois dos 12 meses. Certamente depois dos 18. Sem sombra de dúvidas quando passar a ir pra escolinha.
O sono ainda não melhorou porque aos 4 meses existe um pico de desenvolvimento. Aos, 6, um salto de crescimento. Depois vem outro pico, e então outro salto, e outro pico, e novo salto. Saltos se intercalam com picos; picos são sucedidos por saltos. Mas eles só acontecem com o seu bebê, pois, lembre-se, o dos outros dorme que é uma maravilha.
São meses e meses você sendo culpada, você se culpando; você sendo comparada, você se comparando; você tentando todas as técnicas e táticas e percebendo que as vezes elas funcionam, as vezes não. Você estudando todas as teorias e justificativas e descobrindo que as vezes elas se aplicam, as vezes não.
Após meses de tortura emocional, vem você se resignando, percebendo que estratégias que não funcionam sempre, na verdade não funcionam; que explicações que não são certas sempre, na verdade não explicam. E você vem percebendo que com o tempo a situação vai mudando, vai melhorando. Com o tempo. Aos poucos (bem aos poucos). Com algumas pioras eventuais de vez em quando.
E então você entende: não há explicação para o problema do seu bebê e a única solução é o tempo. Quando o seu bebê deixar de ser um bebê, provavelmente enfim ele dormirá como um bebê. Como o bebê dos outros, de todos os outros, dorme desde que nasceu.
Você nunca saberá o porquê.
Daqui uns anos você nem mais se lembrará disso e talvez até dirá a outras mães que o seu bebê nunca deu muito trabalho para dormir.
E o ciclo de angústia e culpa de outra mãe se inicia.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Estou Apaixonada

Minhas amigas mais próximas sabem, meu marido certamente desconfia e quem leu algumas postagens aqui deve logo ter suposto que eu passei um bom tempo desde o nascimento da Ana Lú odiando ser mãe a maior parte do tempo, me sentindo desalojada da minha vida anterior e mal alocada na minha vida nova, deslocada na função de mãe. As amigas muito muito próximas sabem, inclusive, que cheguei a me arrepender de ser mãe.
Hoje não me arrependo de ter dito isso a elas, pois era o que eu realmente sentia e, se eu não verbalizasse, não confessasse isso para alguém, seria como se o sentimento não tivesse sido admitido, então não poderia ser resolvido.
Também não me arrependo de ter sentido, pois sentimentos fogem ao nosso controle e á nossa capacidade de ser racional; são guiados por hormônios ou pelo subconsciente. Até hoje não sei bem qual deles guiou o meu, mas acho que o medo (do desconhecido e de falhar) teve grande peso sobre mim. 
Puerpério? Egoísmo? Covardia? Não sei e também já não me importa. Aquela pequena pessoa roliça, de cachinhos dourados e olhos cor de piscina foi aos poucos voltando pra dentro de mim (se enfiando no meu coração - diriam os românticos -, se alojando na minha mente - diria eu). E hoje a ocupação está completa. Ana Lu está toda em mim e por isso eu sou toda dela.
Sabe quando você pensa numa pessoa o dia inteiro e dificilmente consegue se concentrar tanto em outra coisa a ponto de a esquecer de verdade? 
Sabe quando você acabou de se despedir da pessoa e já sente saudade?
Sabe quando seu assunto predileto é a pessoa e basta alguém dar uma brecha para você desandar a falar dela loucamente? 
Sabe quando tudo que você vê te faz lembrar da pessoa?
Sabe quando tudo que você pensa em fazer é para agradar e ver a pessoa feliz?
Sabe quando isso chega no nível de possivelmente as outras pessoas te acharem muito chata?
É isso. 
Estou apaixonada! 
Ser mãe é isso. É estar apaixonada (com tudo de bom e de ruim que este sentimento desperta) pelo resto da vida.