sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A Melancolia é Deprimente

Este blog nunca teve a pretensão de versar sobre crítica cinematográfica, mas como,- para desespero de meus amigos, que sempre querem ver algo que eu já vi - o que mais tenho feito ultimamente é ir ao cinema, é sobre filmes que acabo escrevendo. E em geral escrevo desgostando dos filmes, o que me faz parecere uma pessoa amarga.
Hoje, mais uma vez, vim aqui para escrever "falando mal" sobre um filme que assisti, mas enquanto refletia sobre o que ressaltar no filme e o revia em minha mente, fui diminuindo minha antipatia inicial por ele. Trata-se de "Melancolia", de  Lars Von Trier, o diretor dinamarquês que chocou no Festival de Cannes dando declarações esdrúxulas sobre sua (irônica ou não) simpatia por Hitler. Seja pelo título ou pelo diretor do filme já deve ir o espectador preparado para algo não muito animador.
O filme é dividido em duas partes, em duas histórias que, embora tenham as mesmas personagens centrais. A primeira parte trata da melancolia que acomete a personagem Justine (Kirsten Dunst) durante a festa de seu casamento. A segunda parte trata da aproximação do planeta Melancolia, prestes a se chocar com a Terra e causar o fim do mundo (literalmente).
Melancolia, segundo minhas pesquisas "googleanas", enquanto "estado de espírito", é caracterizada pela falta de entusiasmo e de predisposição para a realização de  atividades em geral, acomete costumeiramente pessoas em depressão e não é desencadeada por algum acontecimento específico e concreto. E foi isso o que me incomodou demais no filme. Sem razão nenhuma, num dia que deveria ser um dos mais felizes da vida da pessoa (conforme as convenções sociais), a personagem da noiva, inicialmente radiantemente feliz, vai aos poucos afundando numa apatia sem qualquer explicação.
A falta de explicação para tamanha e tão súbita infelicidade me incomodou muito, embora não por não achar plausível a ausência em si, ainda que eu considere que uma pessoa só deva ficar infeliz por motivos muito concretos e muito contundentes. O que me incomodou foi pensar que de fato existe gente assim, e não é pouca gente . Há muitas pessoas com vocação para a insatisfação repentina ou permanente. Perdem um tempão na vida, se não a vida toda, sofrendo sabe-se lá porquê.
Era esse o caso da primeira história. Num castelo em alguma bela paisagem europeia - realmente a coisa mais interessante do filme é toda sua fotografia -, a personagem afunda-se cada vez mais no desânimo.
Não é de se espantar que essa mesma personagem lide tão bem com o conflito da segunda história, ou seja, o fim do mundo. Enquanto as personagens aparentemente sãs da primeira parte do filme começam a surtar com a fatalidade da aproximação do planeta que destruirá a Terra, a noiva melancólica aceita com frieza e resignação o fim próximo, toma as rédeas da situação e toma pela mão as outras personagens. Bom, é claro que alguém que não vê muito propósito em viver, também não verá muita aflição em morrer. Nem o nascimento de um relacionamento (o casamento) anima, nem o fim de tudo apavora. Tanto faz mesmo. E deve ser bem isso a depressão...
Pensando nessas mensagens discretas na trama, até que o filme não merece ser tão achincalhado como em princípio eu pretendia. Ele ttem uma intenção interessante, embora seja conduzido de modo enfadonho. Tão enfadonho que em certo momento você começa a torcer para que o planeta Melancolia colida logo com a Terra, elimine aquelas pessoas chatamente deprimidas e acabe com o mundo logo (o que no caso equivaleria a acabar o filme), findando a tortura de ter de ficar vendo aquela trama se arrastaaaaando sem que nada de fato acontecesse...  E você torce mesmo para que o mundo acabe! Você não quer que aquelas pessoas se salvem!
Aliás, começo a entender a simpatia do diretor por Hitler... Ele também é adepto á tortura... Psicológica nesse caso! Passei "bons" momentos no cinema me torturando e me angustiando com a dúvida se deveria desistir e abandonar a sala ou insistir e esperar até o final (do mundo e do filme).
Acabei ficando até o fim e vendo o planeta Melacolia destruir a Terra... E agora, ao ir escrevendo esse post e relendo o que escrevi, me veio a pergunta: será que um dia a nossa melancolia destruirá a Terra?
Será que foi isso que Lars Von Trier quis dizer?

6 comentários:

  1. Seu post não deixa claro se você recomenda o filme ou não. Parece que você fez de propósito ao dar maior foco na descrição do que acontece no filme, os pontos altos e o que incomoda. Ele pode instigar a curiosidade das pessoas e estará adequado para quem assistir e gostar, para quem assistir e não gostar e para quem não assistir.

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  2. Pois é, Ricucho, sou calculista, rs.
    Na verdade, não sei se recomendo ou não. Acho que esse tipo de filme depende de um gosto bem específico.
    Não achei o filme "uma porcaria"; achei enfadonho mesmo. Nenhum outro adjetivo o descreveria melhor, a meu ver.
    Mas para pessoas que gostam dos cahamdos filmes "cult" acho que é interessante.

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  3. Ok Lu, primeiro de tudo, ri muito com o seu take do filme.Bastante..."amargo" mesmo, se me permite concordar com você =p Agora aqui vão as minhas interpretações e as do Fábio:
    Na primeira parte do filme,como você percebeu, a personagem de Kirsten Dunst aparece fraca e perdida, enquanto sua irmã, Claire, é dona da situação. Foi ela mesma que organizou o casamento (percebe que a Justine nem mesmo se preocupou em preparar o próprio casamento... será que ela estava feliz mesmo?), e é Claire quem sabe lidar com esses espetáculos sociais. Justine apenas sorri, mas não fala muita coisa. Está na verdade nada empolgada com o casamento; se ausenta diversas vezes sem nenhum motivo aparente e sempre é obrigada a voltar para interpretar seu papel de noiva feliz e viver aquela felicidade falsa que todos exigem dela. Mas aos poucos ela vai perdendo a pose e, finalmente, o próprio noivo desiste e percebe tudo. Justine nunca quis nada daquilo e não estava nem um pouco feliz. Segundo uma crítica que li: “O clima de felicidade artificial, quase histérica, se dilui conforme a noiva mergulha num estado de melancolia paralisante”.
    Claire, por outro lado, é super certinha e prendada. Tem um esposo e filho, mas na segunda parte do filme é ela quem acaba perdendo a pose. Como você mesma percebeu, ela se desespera com o final do mundo iminente enquanto a irmã aceita tudo com muita calma. Justine encarna, na verdade, a própria visão (pessimista) do diretor Lars Von Trier: a de que estamos sozinhos no universo (não existe vida fora da terra) e não há nada depois da morte, nada de uma vida pós-morte, nada de Deus ou céu.
    O início do filme é lindo e faz um prelúdio de tudo; na verdade ele praticamente conta resumidamente e de maneira poética tudo o que vai acontecer: mostra como em quadros, ou telas em movimento, Justine tentando andar, presa por “teias” ( “Quando tento caminhar, sinto um fio de lã, cinza e grosso, enrolado às minhas pernas”, ela confidencia) e depois flutuando como morta; mostra Claire tentando fugir, mostra a terra explodindo, tudo ao som de música clássica (não me lembro qual o nome agora) e com uma bela fotografia.
    O planeta Melancolia ameaçando a terra mostrou a lógica do diretor: que somente o caos nos reduz ao que realmente somos.

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  4. Mi,

    Realmente as cenas do início do filme são muito bonitas e acompanhadas por uma bela trilha sonora que eu ainda preciso descobrir qual é (preciso dessa música para mim!!!). Somente no final do filme pude entender que se tratava de um "resumão" do ocorrido.
    Concordo contigo em tudo que disse. Na verdade, tirando a conclusão sobre a "agradabilidade do filme", que é diferente entre nós conforme nossos gostos, creio que nossa interpretação foi semelhante. Eu só tentei ser mais sucinta no meu post para não contar toda história (mas você agora o fez, rsrsrs).
    Uma coisa que não comentei no post, mas que me chamou bastante a atenção no início do filme foi que Justine sorria muito.... Sorria muito, mas falava pouco. Daí pensei na frase "rir de tudo ée desespero"...
    Ah, uma parte interessante no começo do filme, que já traz um indicativo de que Justine quer "fugir" do casamento foi ela ter querido ir cumprimentar o cavalo antes de entrar p/ a festa, mesmo já estando atrasada...
    Só que no caso dela eu não acho que o problema se deveu ao fato de estar casando apenas para seguir convenções sociais... Não acho que ela mergulhou em um estado melancólico por causa disso especificamente.
    No caso dela, acho que todo aquele desinteresse pelo casamento era sinal de algo maior... Eu vi Justine como aquelas pessoas que são depressivas por o serem, que nunca se satisfazem com nada e que por isso se tornam auto destrutivas... Não sei se tive essa impressão por conhecer pessoas assim ou se era isso mesmo que nosso amigo Lars queria dizer. A julgar pelo termo "melancolia", creio que sim.
    Quanto à lógica do diretor que vocêe mecionou, não sei se estou bem de acordo com ela. Não sei se somente o caos nos reduz ao que realmente somos... Nesse caso, Claire seria na verdade uma fraca, já que assim se mostrou no caos.
    Na verdade acho que somos muitas coisas, que não podem ser resumidas em um momento. Somos fortes para algumas situações e fracos para outras.

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  5. Ah esqueci de falar: se você assistir "A árvore da vida" tente ver ele como sendo uma visão completamente oposta do "Melancolia" sobre a vida, o mundo, e Deus..!

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  6. Ok, verei, postarei e tu comentarás!
    Acho que precisamos ir ao cinema juntas... rs

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