segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

SRD

SRD é jargão veterinário para vira-lata.  Sigla para abreviar a definição "Sem Raça Definida". 
Serve para definir não só as minhas cachorras, como também a mim. E não que o cão seja o espelho do dono, conforme apregoam por aí... Mas sou uma "Sem Religião Definida" e pessoas com essa falta de uma crença especifica são vistas por muitos por aí com o mesmo olhar de nariz torcido e desconfiado com que se olham para os vira-latas...
Como alguéem pode querer ter um vira-lata em vez de um lindo e peludo cãozinho de raça para levar no pet shop toda semana para ser banhado, escovado e enfeitado com laços?
Como é que alguém pode viver sem religião? É impossível viver em paz sem acreditar em Deus!
De fato. Hoje concluí que é mesmo impossível viver sem acreditar em algo. E foi a notícia da qual tive cconhecimento pela internet que me fez pensar nisso... A segunda notícia numa mesma semana da qual infelizmente tive conhecimento a respeito de crueldade com caezinhos.
Aquilo me doeu na alma quando tomei conhecimento e continua me doendo... Como alguém consegue fazer tal crueldade? Como alguém consegue sequer pensar em fazê-la? Mas este tipo e tantos outros de crueldade acontecem todos os dias e aconteceram em todos os tempos.
Errados estão os mais velhos quando dizem "que esse mundo de hoje está perdido". A crueldade vista no mundo de hoje é a mesma que se via no mundo de antes, só que antes se matava de outras maneiras... Com esquartejamentos, enforcamentos e decaptações em praça pública! 
E hoje toda a crueldade que acontece pode ser mais facilmente difundida e conhecida. Temos os noticiários diários e a internet para isso... Então achamos que ela é maior, quando na verdade só é mais divulgada.
Tenho vontade de desligar a TV para não saber de nada. Mas isso me parece covarde; me parece "fechar os olhos" perante a realidade. E então me pego questionando qual o objetivo prrático de conhecer certas realidades se não há como sozinha transformá-las?
É preciso saber para ter consciência. Mas ter consciência para quê? Ter consciência de que existe maldade no mundo e de que nada posso contra ela? Consciência da minha impotência frente a isso tudo? Para quê, se minha impotência só me traz angústia e raiva? Consciência de que as instituições humanas são falhas e que para tais atos raramente há justiça?
Para viver consciente disso tudo e sem enlouquecer de desgosto e incconformação só mesmo acreditando que para tanto horror há de existir um propósito e uma justiça, já que não aqui, além.
Agora entendo o que as pessoas querem dizer com a impossibilidade de se viver sem religião...
O meu problema é que minha fé é relativa, não absoluta. Sempre fui cética e por isso me designava atéia... Com o tempo descobri que tenho cá minhas superstições - não de fato convicções - que me impedem de me auto denominar atéia. Agnóstica soa melhor para mim.
Alguns diriam que sou espírita. E até bem pouco tempo atrás eu também assim me diria... Mas a idéia do "umbral" é uma alegoria que para mim não faz muito sentido... Lembra-me muito a noção cristiana de inferno. E não vejo como pode ser de alguma maneira salutar para o desenvolvimento de uma alma vil ser colocada junto com outras almas igualmente vis num lugar inóspito onde se lhe é imputado todo tipo de flagelo físico e mental.
Para mim a alma vil volta para cá, para conviver com tantas outras almas, umas mais e outras menos vis do que ela, para que possa ter a chance de enxergar todas essas nuances. de aprender a compeender e a se pôr no lugar do outro (o que só é possível com contato e interação) e de fazer novas escolhas. Para mim, portanto, o umbral é aqui. E assim sendo conservo eu cá, já que aqui estou, também o meu quinhão de vileza... rs.
Apesar de achar que se ainda estou aqui é porque ou nada sei ou ao menos não sei o bastante, essas minhas visões de mundo trazem certo conforto e acalantam minha alma... Entretanto esse conforto e esse acalanto são relativos, porque assim o é a minha fé.
Não consigo acreditar incontextavelmente, nem defender implacavelmente, pois no fundo acredito que tudo sempre é questionável.
É questionável porque de fato deixa muitas questões em aberto, muitas perguntas sem respostas...
Mas, se eu tivesse essas respostas, talvez fosse porque já não precisasse mais estar aqui... Talvez eu esteja aqui justamente para fazer as perguntas...
Uma coisa é certa: é mesmo angustiante viver com a incerteza. 
Talvez só haja duas alternativas: ser ignorante ou ser crente.
Pena que não cconsiga nem não saber de nada e nem crer em tudo.

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