terça-feira, 27 de março de 2012

Ser amigo ou ser colega?

Estava fazendo backup do meu desktop e encontrei um texto nerd-deprimido de meados de 2008, quando tive muitas experiências complicadas no meu ambiente de trabalho, quando descobri que as pessoas eram piores do que eu imaginava e que eu mesma não era tão boa quanto supunha.
Hoje posso dizer que continuo a mesma da época em que escrevi esse texto - se não um pouco pior -, mas a dúvida que nele torturava já não tortura mais.
Um dos poucos, se não o único, dos defeitos que tenho que já nem me incomoda mais é pensar da maneira que eu pensava naquela época quanto a relacionamentos humanos.
Bom, relendo o texto, eu na verdade o achei uma porcaria, rs, mas como faz tempo que não posto nada aqui, vai isso mesmo.


Ser amigo ou ser colega?


Faz tempo que tenho me pegado num dilema pior do que o dilema hamletiano: ‘Ser amigo ou ser colega”?
Para poder optar entre um e outro, era preciso que eu primeiro entendesse qual a essência de cada um deles, então, é claro, recorri ao maior oráculo pós-moderno que conhecemos: o Google!!! O oráculo mostrou-me que a Wikipédia tem sempre mesmo a resposta para tudo e foi lá que descobri o que parece ser a definição socialmente aceita dos dois termos:
          “Amizade (do latim amicus; amigo, que possivelmente se derivou de amore; amar, ainda que se diga também que a palavra provém do grego) é uma relação afetiva, a princípio sem características romântico-sexuais, entre duas pessoas. Em sentido amplo, é um relacionamento humano que envolve o conhecimento mútuo e a afeição, além de lealdade ao ponto do altruísmo. Em sentido mais estrito, são chamados de amigos aquelas pessoas com quem se costuma realizar atividades recreativas, tais como esportes, jogos diversos, sair à noite; ou no contexto dos adolescentes, aqueles com os quais se dão melhor na escola. Muitos apontam nisso uma confusão entre o conceito de amigo e o de colega, este sim um tipo de pessoa com o qual não há fortes laços de companheirismo, apenas interesses afins”.
          Foi então que descobri que, pelo menos na teoria, o meu Código de Ética da Amizade não estáva tão desatualizado, conservador e retrógrado quanto eu andei pensando que estivesse...
          Mas o meu lado racional que busca sempre a verdade por meio da constatação empírica - criado e alimentado nos anos matemáticos da faculdade de economia - me faz pensar em milhares de testes de observância que corroborassem a tese da Wikipédia. Passando da análise semãntico-social da essência dos termos para a análise científico-sociológica do comportamento social vigente, conclui que, ou minha amostra anda meio viesada, ou a teoria não é confirmada pela prática...
          E isso me fez pensar que talvez a língua precise mais que de uma reforma ortográfica; talvez precise de uma reforma semântica, pois, do que foi definido pela Wikipédia, parece que ultrimamente sobrou mais o sentido extrito do termo amizade do que o sentido amplo.
          Outra hipótese é de que a amizade em si, como termo, continua sendo a mesma, porém sua frequência de ocorrência diminuiu, tendo aumentado a prática social extrita do chamado “coleguismo”. Nesse caso, a língua não precisa de reforma semãntica; quem precisa de reforma sou eu... e então eu volto a meu enigma: “Ser amigo ou ser colega, eis a questão”.
          Para mim, que só conheço o sentido amplo - com seu amplificado sentimento - do termo amizade,  a categoria coleguismo fica parecendo uma pseudo amizade e, como é bem sabido (se é que a semântica não andou mudando mesmo), pseudo é indicação de algo que é falso, que é enganoso, como uma imitação do que é verdadeiro.
          Talvez eu esteja sendo muito restrita e deva relaxar a hipótese do que significa o prefixo “pseudo” assim como do termo amizade, para encontrar um intervalo de aceitação maior para as relações sociais observadas empiricamente. Então, aceitando que “imitação da verdade” não é uma coisa falsa e sim uma “meia verdade”, posso dizer que o coleguismo é uma “meia amizade”.
          Só que meia amizade, para mim, acaba sendo uma amizade pela metade, uma amizade em que eu não posso ser inteira, porque não posso falar toda a verdade. E eu não sei ser de outro jeito se não for sendo inteira... Eu inteira já sou tão pequeninha, como eu posso ser de mim somente a metade?
          Sendo amiga pela metade eu me sinto sendo uma pseudoluciana. Sendo pela metade eu me sinto como não sendo nada... E, sendo pseudoeu, só consigo interpretar o pseudo com o significado de “falso”, e não consigo acalmar minha consciência dizendo que é um “quase verdadeiro”.
          De tantos auto questionamentos éticos e crises de consciência por ter tentado nos últimos tempos abstrair o termo amizade e praticar o coleguismo, só posso concluir que realmente, nem com Google e Wikipédia, eu aprendi o que é ser colega. Porque, se eu fosse colega, não me pegaria me preocupando tanto com os sentimentos de outras pessoas e me questionando tanto com minhas atitudes quanto a elas.
          Então, para a minha questão só existe uma resposta: ou eu preciso desistir mesmo quando não der para ser amigo ou preciso enfim aprender a ser colega...

Nenhum comentário:

Postar um comentário