Este post não será agradável de ler, assim como não foi nada agradável de escrever. Se você não for ateu, agnóstico ou um religioso com compaixão por essas pobres almas, é melhor parar por aqui.
Como todos sabem, não posso me dizer exatamente atéia, porque tenho lá minhas superstições e uma moderada simpatia pela doutrina espírita. Por outro lado, não consigo encontrar em nenhuma religião respostas que satisfaçam as inquietudes e questionamentos do meu ser. Enfim, minha soberba não é tão acentuada assim que me permita negar veementemente a existência divina, nem tão pouco afirmá-la. Como já disse algum poeta por aí: só sei que nada sei. Como não sei, não discuto. Deixo que cada um fique "em paz" com suas convicções e peço apenas que me deixem "em paz" com as minhas incertezas. Em resumo, sou o que se pode dizer de um modo refinado agnóstica, que é nada mais, nada menos, que alguém em cima do muro - posição que, aliás, combina bem com a minha formação de economista, afinal de contas tudo é muito relativo...
Hoje, assistindo o noticiário, que falava sobre a tragédia das inundações na região serrana do Rio, vi toda aquela gente que conseguiu salvar alguma coisa em meio à casa que perdeu - ou algum parente em meio à família que morreu - dizendo "graças a Deus" e só conseguia pensar no quanto tudo mesmo é relativo, inclusive a religião e suas explicações... Se, no meio de tanto desgosto e desgraça, algo dá certo, é graças a Deus, mas o desgosto e a desgraça em si que levaram a toddo o resto não o são... São sim "a vontade de Deus", pois afinal "Deus sabe o que faz" e não se deve questionar os designios divinos.
Eu, do conforto do meu sofá, não conseguia entender como aquela gente tão ferrada e sofrida agradecia pelo pouco que sobrava e não se revoltava pelo muito que lhe havia perdido, pelo infortúnio ou pelo desígnio. Acho que isso é que é ter religião... É ter certeza tão absoluta de algo que nem a desgraça abala. Vulga paciência de Jó...
A religião é boa, acalma e acalanta; faz resignar em meio a todos esses terríveis e trágicos desígnios. Melhor pensar que tudo o que vivemos, mesmo quando sofremos, tem alguma razão imperscrutável, do que achar que simplesmente não tem razão nenhuma. Mas eu não consigo ter minha alma acalantada. Quando vejo essas tragédias no noticiário só o que penso é na aleatoriedade... As coisas não acontecem a um e deixam de accontecer a outro necessariamente porque o primeiro é malvado e o segundo é bonzinho.
E olha que para mim seria reconfortante pensar assim, pois, considerando todas as misérias e padecimentos de que se tem notícia nesse mundo, eu sou uma pessoa abençoada - e você que lê provavelmente também o é. Ok, nós somos almas boas. Mas o Collor, o Maluf, o Sarney, também são abençoados, talvez até mais do que nós. Definitivamente a casa deles não é soterrada e, ainda que fosse, isso não significaria perder tudo, pois eles têm suas poupancinhas no exterior...
Aleatoriedade, meus amigos, aleatoriedade.
Alguns me responderão que cada um tem suas próprias desgraças. Que mesmo os que têm bens, lares e família protegidos das intempéries naturais não fogem aos designios divinos e sofrem lá suas tragédias, nas devidas proporções de suas condições de vida. Ali a tragédia seria menos por problemas materiais e mais por problemas emocionais, espirituais, psicológicos, ou de saúde.
É complicado qualificar e, mais ainda, quantificar sofrimento. Mas eu penso, certamente com base nos meus valores, que não são obviamente compartilhados por todos, que é "melhor" chorar deitado na cama e abraçado com o travesseiro, agasalhado e alimentado, do que na rua, na chuva, no barro, no frio, na fome.
Já disse, não tenho eu do que reclamar. Se deus existir, sou uma pessoa abençoada e devo agradecê-lo por ter o travessseiro pra abraçar e a cama pra me jogar nos meus momentos de "sofrimento", mas isso me deixa mais inquieta ainda quando vejo essas tragédias na tv... Por que eu tenho direito a essa cama e sesse travesseiro? Por que outros têm direito a uma cama king size e a um travesseiro de pena de ganso? E por que outros não têm direito nem sequer á casa?
Talvez esse seja o mesmo peso na consciência que leva os filhinhos de papai classe média da FFLCH a se tornarem csocialistas, omunistas, anarquistas, etc... Afinal, a gente semprre faz uma "mea culpa" tendo consciência social...
Talvez esse seja o mesmo peso na consciência que leva os filhinhos de papai classe média da FFLCH a se tornarem csocialistas, omunistas, anarquistas, etc... Afinal, a gente semprre faz uma "mea culpa" tendo consciência social...
Entretanto, o fato é que tanto o meu post solidário quanto o discurso panfletário dos boyzinhos comunistas são apenas palavras; e palavras não mudam fatos. Daí minha solidariedade e minha consciência social, assim como a da maioria das pessoas, acaba nissso. Ou no máximo se estende até uma doação de roupas e alimentos... Depois disso, podemos ter a consciência tranquila por não sermos insensíveis à dor alheia e encostarmos a cabeça em nossos travesseiros, nas nossas camas quentinhas, nas nossas casas sequinhas. E agradecer a Deus por ela.s Enquanto outros, "escolhidos" de modo aleatório, agradecem a Deus por bem menos.
Sim, estou reflexiva e deprimida. Deprimida por não entender o que faz de alguns "abençoados" e de outros não. E mais deprrimida ainda por constantar que tudo o que fazemos ou sentimos pelos outros na verdade fazemos e sentimos por nós mesmos. Mesmo a solidariedade não é altruísta. A gente sente a dor dos outros para se sentir consciente e sensível. A gente faz bem aos outros para fazer bem à própria consciência.
Bom, ainda que isso não faça de nós bonzinhos, nos faz menos malvados do que aqueles que nem essa pseudo consciência têm, não? (Sendo verdade ou não, isso acalanta minha alma, rs).
Bom, ainda que isso não faça de nós bonzinhos, nos faz menos malvados do que aqueles que nem essa pseudo consciência têm, não? (Sendo verdade ou não, isso acalanta minha alma, rs).
Enffim, hoje o céu está cinza...
Vai continuar choveendo...
E o melhor a fazer? É não assistir mais tv.
Vai continuar choveendo...
E o melhor a fazer? É não assistir mais tv.
Cadê os comentaristas de plantão?!
ResponderExcluirBom, Lu, vc bem sabe como esse assunto sempre me vai bem, então dificilmente eu não comentaria, não é?
Não acredito que se deva confundir bênção com casa sequinha e travesseiro. Materialidade e conforto fazem a nossa vida mais agradável, mas isso não significa que somos abençoados por termos essas coisas - pela racionalidade que vc usou no texto, do lado do muro em que a religião é aplicável, a religião é calvinista. E concordo com vc que a doutrina calvinista (e suas descendentes protestantes) não é inspiradora, e só é acalentadora para quem tem o tal travesseiro de penas de ganso.
Mas uma coisa que percebi ao ler o seu texto é que minha opinião é oposta à sua na ideia de que a religião é boa, acalma e acalanta. A percepção que eu tenho é que, na verdade, a religião é um desafio. Aceitar uma religião como um conjunto de valores morais a preservar, e efetivamente praticá-la são desafios supremos de uma vida! Quantas pessoas vc conhece que conseguem isso?! Uma? Duas? Alguma?
Então, pera lá! É mais fácil sentarmos em nossos sofás e aceitarmos a desgraça alheia como aleatoriedade - assim nos imiscuindo da responsabilidade de agir - do que aceitarmos que aquilo que acontece no mundo é, de acordo com alguma justificativa religiosa X, parte integrante de nossas trajetórias. Aceitando isso, tornamo-nos obrigados a buscar o nosso papel individual no mundo... e a partir daí somos desafiados a exercer esse papel. É mole ou quer mais?
Enfim, adorei o post. Adoro assuntos polêmicos e, como vc caracterizou, "desagradáveis"!! rsrs
Seu comentário quase virou outro post, rs.
ResponderExcluirE, se não me engano, foi para um caminho no qual já caminhamos durante uma discussão semelhante...
O flagelo dos desabrigados em razão das enchentes seria não só um desafio na vida deles, mas na nossa também. Não são só os diretamente afetados por uma situação especifica que estão sendo desafiados e têm a oportunidade de aprender com aquilo, mas os não diretamente afetados também. É oportunidade para quem está "de fora" perceber que talvez não esteja tão de fora assim e que tem responsabilidade de fazer algo, já que tem a possibilidade de o fazer.
Mas quem de nós efetivamente faz?
E não estou criticando quem não o faz, porque eu não faço também. Aliás, foi essa a parte mais desagradável e deprimente de todo o meu racciocínio. Eu não sei "viver na caridade".
Tenho uma quedinha pelo espiritismo, mas em verdade sou ainda muito materialista. E, do jeito que escrevi, entendo porque fui ofendida, digo, chamada de calvinista, rs.
Mas eu juro que não quis dizer que benção é ter conforto material. Só acho que quem tem conforto material pode-se sentir sim abençoado, ou ao menos com sorte.
Claro que conforto material não implica em conforto espiritual. Mas deveria de certa forma implicar, se as pessoas aprendessem a valorizar algumas "facilidades" ou "tranquilidades" que têm na vida e das quais nem todos dispõem.
Quanto ao seu ponto sobre a religião ser um desafio, estou de acordo. Ela é teórica. Colocá-la de fato em prática é sim um desafio. Poucos de fato o fazem e eu pesssoalmente não conheço ninguém que o faça, pelo menos não em sua integralidade, até porque nem sei se isso é possível.
Mas creio que a maioria das pessoas não atenta para esse desafio. Por isso para a maioria das pessoas ela é boa.
Enquanto nós ficamos filosofando sobre a religião, as pessoas em geral lançam mão dela nos momentos difíceis da sua vida, ccomo uma muleta. E não o digo no sentido pejorativo, e sim no sentido de apoio, para não cair, ou para ajudar a se levantar. Por isso disse que é boa.
Bom, na verdade tanto pode ser boa quanto má, assim como qualquer invenção do homem... Depende para que fim e com que justificativas se vai usar.