Reza a lenda que servidores públicos não são lá muito afeitos a mudanças, por isso dizer que algo novo foi criado no seio da burocrática administração pública parece, em princípio, incongruente. Então vejamos:
Foi na administração pública que aprendi a trabalhar um novo verbo: sabonetar! Este é o verbo que todo dia, no mínimo uma vez ao dia, pelo menos algum servidor conjuga. E como tem sempre alguém conjugando, acho que fica melhor eu dizer que aprendi a não trabalhar graças a esse novo verbo... Afinal, mentiria eu se dissesse que se trata de um verbo defectivo. Existe conjugação em todas as pessoas e, repito, todas elas conjugam, inclusive a primeira do singular. Mas esta, meus amigos, em sua real defesa alega que só o conjuga em resposta á conjugação de outra pessoa.
A primeira pessoa do singular que vos fala recorrentemente recebe “coisas” com os simples dizeres “para prosseguimento”, sem que lhe seja dito o que e para onde se deve prosseguir.
Desta forma, já foi até aventada pela primeira pessoa a possibilidade de se etiquetar a lata do lixo com a palavra “prosseguimento” e resolver assim o dilema. Mas depois foi pensada uma solução que numa rápida análise parece mais elegante, embora em essência tenha o mesmo efeito que a primeira aventada, e após algumas linhas falando-se sobre tudo sem dizer-se absolutamente nada, manda-se a “coisa” de volta para o lugar de onde ela veio “à consideração superior”.
E assim, enquanto os interlocutores todos ficam sabonetando, a “coisa” fica petecando por aí !(vejam só, mais um neologismo!) até que alguém decide, já que não quer de fato decidir nada que tenha que escrever e assinar embaixo, que seria conveniente mandar a “coisa” para análise jurídica.
Mal sabe esse alguém (ou bem sabe e justamente por isso o faz) que advogados não têm espírito lúdico e acabam com a brincadeira, dando um incrível sumiço na peteca!
Daí, só te arremessam a peteca de volta uns dois anos depois, quando você nem lembrava mais que estava brincando... A peteca vem com tudo na sua cabeça e aí, com o impacto, ou você acaba se lembrando enfim dela, ou fica com amnésia de vez!
E não, a peteca quase nunca vem redondinha. Atente para o fato de que é uma peteca, não uma bola! Em geral fica concluído algo não muito conclusivo. A decisão do julgamento costuma vir acompanhada de um “salvo melhor juízo”, que é um jeito adiantado de se pedir desculpas pelo que concluiu e se colocar aberto a outras considerações.
E assim seguimos a vida: mente aberta, assuntos em aberto e nenhuma decisão fechada!
E eu estou precisando aprender a conjugar outro verbo: conformar... Modo reflexivo...
E eu estou precisando aprender a conjugar outro verbo: conformar... Modo reflexivo...
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