"Jamais me canso da companhia de Edward. E ele tampouco da minha, da mesma forma que não cansamos das batidas de nossos próprios corações. Por issso, estamos sempre juntos. Estar juntos para nós significa, ao mesmo tempo, ter toda a liberdade da solidão e toda a alegria da companhia. Conversamos, creio, o dia inteiro. Conversar um com outro é para nós como pensar, só que em voz alta e de forma mais animada. Confio inteiramente nele e ele em mim. Nós nos encaixamos de maneira absoluta, e o resultado é uma harmonia perfeita".
Esse é um parágrafo do último capítulo de "Jane Eyre", romance de Charlotte Bronte, irmã de Emily Bronte (a autora de Morro dos Ventos Uivantes), que eu acho que descreve bem o que é de fato amor, e não aquele sentimento conturbado de Catherine e Heathcliff. Convenhamos que é uma descrição mais reconfortante e bonita, já que traz nas entrelinhas a noção de cumplicidade e companheirismo, do que "Se o amor dela morresse, eu arrancaria seu coração do peito e beberia seu sangue".
Sim, pessoas, é uma história de amor, mas de um amor virtuoso, bem diferente daquele amor conturbado do Morro dos Ventos Uivantes. Nem destrutivo, nem vingativo. As personagens principais sofrem, é claro, por um bom tempo a dor da não consumação de seu amor e da separação, afinal "todo amor só é bem grande se for triste", dizem os poetas. Mas não estendem, ou melhor, não imputam aos outros a dor que sentem. A forma com que lidam com o sofriemnto é diferente daquela da dupla doentio-romântica de Emily Bronte.
E olha que Jane e o Sr. Rochester, os heróis deste romance, também sofrem bastante. Mas lidam com esse sofriemnto - e com os demais sentimentos - de forma madura. E há entre eles um amor maduro também. Comparando com a postura das personagens da outra história, isso me fez pensar que há sim uma influência da criação e das vivências sobre as pessoas, porém há também a forma como cada um absorve essas experiências e como se posiciona frente a elas. É sim uma questão de escolha e essa escolha determina sim o que se colherá no futuro: dor ou amor.
Foi essa uma das principais mensagens que encontrei no livro. É claro que cada um encontra no fim aquilo que busca e que, portanto, minhas interpretações têm muita relação com minhas convicções, no entanto tive por diversas vezes a sensação de estar lendo mensagens muito semelhantes à doutrina espírita, quanto a posicionamento frente a injustiças e infortúnios e as consequências desse posicionamento.
Vi, digo, li issso especialmente nos conselhos de Helen Burns para sua amiga Jane: "Somos, e devemos ser, todos nesse mundo, pessoas cheias de defeitos. Mas um dia virá, espero, em que nos livraremos deles... Meu credo é outro, o qual nunca me foi ensinado e que raramente menciono, mas ao qual me apego e que me dá muito prazer, porque através dele é possível estender a esperança a todos nós. Ele faz da eternidade um descanso, um lar acolhedor, não um terror e um abismo. Com esse credo, posso distinguir a criminoso de seu crime, e perdoar com toda sinceridade o primeiro ao mesmo tempo em que abomino o segundo".
Não sei se pode-se chegar a fazer uma analogia entre essa forma de posicionamento frente às injustiças e maldades sofridas com a doutrina espírita. Entretanto, cristão é que não me parece. E me pareceu menos ainda na visão da morte que se aprresentou ao longo do livro... A morte de Helen Burrns no início da narrativa, bem como no final do livro o eminente falecimento de St. John, pastor missionário, não são tratados como eventos tristes e conturbadores, e sim como naturais, em que seus protagonistas vão em paz, já que suas crenças religiosas lhes conferem essa sensação. E se eles estão indo em paz, porr que "nós" deveríamos não estar?
Foi por essa visãotão lúcida e lógica, e por tantas outras ao longo do romance, que gostei bastante do livro. Hoje tudo que ali está escrito e defendido já não tem muito de inovador. Hoje talvez seja apenas uma história de amor... Entretanto, para compreender o mérito da obra é preciso atentar para sua época, não para a nossa.
O romance foi escrito em 1847. E, assim como o posterior "Morro dos Ventos Uivantes", parece trazer certa crítica ao casamento por conveniência e sem sentimento. Porém entendo que seja menos isso e mais uma crítica ao próprio papel da mulher no casamento. Aliás, mais que no casamento; no mundo.
Jane Eyre, ao contrário de Catherine, não quer se casar para ter segurança, seja ela emocional ou material. Quer se casar por amor, e, em se casando com seu amado, não quer dele além do sentimento, não quer jóias, não quer vestidos, não quer ter o que não possa por si só comprar, não quer sequer deixar de trabalhar, enfim, não quer ser sustentada!
"E inútil dizer que os seres humanos deveriam satisfazeer-se com uma vida tranquila. Eles precisam de ação. E se não a encontrarem, irão fazê-la acontecer. Milhões estão condenados a um destino ainda mais inerte do que era o meu, e milhões sentem uma revolta silencciosa contra esse destino. Ninguém sabe quantas rebeliões, além das de caráter político, fermentam no peito das pessoas. Espera-se das mulheres que sejam calmas. Mas elas são como os homens. Precisam exercitar suas faculdades, necessitam de um campo para expandir seus esforços, assim como seus irmãos. Sofrem com a restrição absoluta, tanto quanto os homens sofreriam. E é tacanho por parte desses seres privilegiados dizer que elas devem se limitar a fazer pudins e tecer meias, a tocar piano e a bordar bolsas".
Por trechos como esse, que atualmente já não são chocantes, que Jane Eyre é, a meu ver, mais que uma simples história de amor. É a história de uma mulher que busca liberdade e independência, numa época em que não era isso que se dizia que as mulheres deveriam buscar.
Deveríamos, por isso, dizer que Charlotte Bronte era uma mulher "a frente de seu tempo", mas eu não sei não... A julgar pelo sucesso que o livro fez já naquela época em que foi escrito, talvez a autora estivesse mesmo certa ao dizer que milhões sentiam aquela revolta silenciosa fermentando em seus peitos.
Sou fã!
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