terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Gosto não se discute

Gosto não se discute... Se lamenta!
E foi assim que, por muitos anos, completei essa frase, achando uma ironia muito engraçadinha.
Hoje me pergunto se não é uma ironia arrogante... Quem sou eu para lamentar ou condenar o gosto de alguém?
Semana passada foi pauta de algumas discussões no Facebook a capa da Época com o atualmente famoso Michel Teló e seu sucesso do momento “Ai delícia”. A crítica era ao fato de a revista ter se dignado a fazer um artigo sobre esse assunto e a ter dito que a tal música representava a cultura popular brasileira. O blogueiro autor do post que deu início à discussão estava inconformado com o fato de o artigo ter tratado uma música com uma letra tão inócua como sintetizadora e representante da tão vasta cultura popular brasileira. Ele nem entrou no mérito de avaliar a qualidade da música, mas muitos comentários ao seu post sim.
Eu também achei estranho a revista dedicar tempo, pauta e capa a um assunto como esses, uma vez que eu imagino que seja apenas um sucesso de momento, feito com ajuda da mídia e a partir de uma letra fácil, “divertidinha” e repetitiva como tantas outras e que em breve, como aquelas tantas outras, cairá no esquecimento. Não vejo o porquê de este “fenômeno” ser considerado diferente ou maior que os outros.
Também não acho que uma única música seja capaz de sintetizar toda a cultura de um povo, que tem várias nuances, ainda mais considerando-se um povo que vive em um território tão grande quanto o nosso. Mas acho que entendo o que a revista quis dizer...
Convenhamos que aquilo a que chamamos de MPB já não é mais de fato representante da música popular brasileira. Infelizmente (a meu ver), a maioria da população não ouve Chico Buarque. A maioria da população gosta de letras mais fáceis, fáceis de entender e de cantar. É isso que faz sucesso.
Daí pessoas como eu, pseudo cultas e pseudo intelectuais, com uma boa formação universitária, que gostam de ler e de escrever, torcem o nariz para tudo isso e dizem que não é cultura.
Mas é preciso pensar, sem pré conceitos e sem juízo de valor, no que significa cultura. Cultura não é o que eu gosto e acho refinado. Cultura é o conjunto de sistema de valores, ideias, conhecimentos, técnicas e padrões de comportamento de uma sociedade. Ela é ampla, em parte diferente conforme a origem social ou regional, e se manifesta por meio de todo tipo de produção artística.
Nesse sentido, goste eu ou não, o tipo de música que grande parte da população brasileira aprecia é sim uma expressão cultural. Analisando racionalmente Michel Teló é tão cultura quanto Chico Buarque.
O problema é que colocamos erroneamente juízo de valor no termo cultura, assim como fazemos com o termo ética. Dizer que alguém não tem cultura só porque o gosto da pessoa é diferente do seu (e você não gosta do gosto dela) é tão terminologicamente equivocado quanto dizer que alguém não tem ética só porque o conjunto de valores dela é diferente do seu.
Claro que mentirei se disser que não me incomoda e nem me entristece ver que Michéis Telós da vida fazem sucesso estrondoso e que Chico Buarque é desconhecido de muitos. Assim como, sim, me assusta novelas e programas como BBB fazerem tanto sucesso, enquanto que tentativas como o “Festival Cultura da Nova Música Brasileira” não emplacam... Morro de medo que o Brasil vire uma Idiocracia e já nem sei o quão longe ainda estamos disso, considerando que a maior parte da população não tem senso crítico e nem bom senso político. Parece que cada vez somos menos convidados a pensar e a refletir... Por isso entendo aqueles que agora se manifestam no Face contra o BBB, fazendo campanha contra “esse lixo do BBB”, entretanto parece-me um tanto “nazista” e arrogante tal visão. É a “elite intelectual” dizendo ao povão que o que ele assiste é lixo.
Mas, vamos lá, em primeiro lugar, não é só o povão “sem cultura” (aqui no sentido de sem acesso à educação e à informação) que assiste esse tipo de programa no Brasil. E nem é só no Brasil que ele faz sucesso... Na verdade, ele foi importado de países desenvolvidos, onde os anos de estudos e o número de livros lidos anualmente por habitante são muito maiores.
Em segundo lugar, por que chamamos lixo? Chamamos lixo porque achamos que ele não só não acrescenta conhecimentos para a pessoa, como também compromete seu poder de raciocinar, aniquila seu senso crítico.
Mas eu vejo de outra forma. Embora eu não goste mais desse tipo de programa, creio que o problema não está exatamente em as pessoas o assistirem para se distrairem. Dizer que as pessoas só devem assistir programas como noticiário da Cultura e Roda Viva seria dar uma de intelectual chato que só quer ver “filme cult” e que torce o nariz pra comédia pastelão ou romântico água com açúcar.
Não é o tempo todo que queremos tratar de assuntos profundos, densos. As vezes só queremos ver um filme, assistir um programa ou ouvir uma música para se divertir e relaxar, não para refletir e pensar.
O problema de verdade aqui é nunca querermos refletir e pensar. O problema aqui é nunca termos contato com assuntos mais profundos e densos. O problema aqui não é assistirmos BBB; é só assistirmos BBB e o assistirmos sem o devido senso crítico desenvolvido para podermos discernir o que dele deve e o que não deve ser absorvido.

Um comentário:

  1. Falou e disse Lu! Não sou tão iletrada e inculta assim mas abomino os pseudointelectuais (e o Chico Buarque hehehe) e curto muito me divertir com novelas, BBB e livros da Marian Keyes! E vou comentar no FB sim, que se danem os chatos de plantão.

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