sexta-feira, 22 de maio de 2015

Bramquela Pigmentada

Não sei se todos sabem, mas uma das piadinhas cósmicas desta vida é que o albinismo é mais frequente na raça negra. E quando nasce uma criança albina numa família negra é comum haver rejeição por parte do pai, o qual acredita ter sido traído.
Também não sei se é do conhecimento de todos que existem vários tipos diferentes de albinismo, causados por mutações em diferentes genes. E, por conta disso, eu sempre defendi a tese, por questão de lógica, de que um casal de albinos só teria filhos também albinos se ambos possuíssem o mesmo tipo de albinismo, ou seja, se tivessem a mesma mutação no mesmo gene. Já, se fossem albinos de tipos diferentes, teriam filhos normalmente pigmentados.
Muita gente desacreditou da minha tese. Agora tenho a prova empírica.
O problema é que agora alguns podem desacreditar da minha fidelidade... Rs
Engraçado que quando Rick (meu esposo, também albino) e eu começamos a namorar, um dia, numa conversa tomando um café no shopping, comentamos sobre o fato de os pais negros de filhos albinos desconfiarem de traição e achamos graça de no nosso caso poder ocorrer justamente o contrário, ou seja, de um filho não albino causar espanto e descrédito por parte das pessoas.
Interessante que, salvo engano, naquele mesmo dia, um cara nos parou do nada no meio do caminho justamente para falar que nós poderíamos ter filhos não albinos, mas que as pessoas ficariam sem entender e teríamos que ficar nos explicando...
Será que era aquilo um sinal do destino?
Na época achei a coincidência bem interessante, porém não lhe dei assim tanto crédito.
Da mesma forma que, quando me descobri grávida, também não dei crédito para a minha própria tese. Para mim era natural imaginar que Ana Luíza nasceria albina. E acho que para o Rick também... Tanto que até compramos carrinho de bebê com proteção UV e óculos de sol para recém nascido...
É que, apesar da minha tese, eu acreditava que Rick e eu fôssemos do mesmo tipo de albinismo. Isso porque existem dois tipos mais comuns, o tipo 1, que é o menos pigmentado, e o tipo 2, que produz alguma melanina. 
Exames feitos na Santa Casa, dentro de um projeto de estudo sobre albinismo, comprovaram que Rick era do tipo 2. E, embora não tenham conseguido aproveitar nenhuma das duas amostras de sangue que extraíram de mim para definir qual seria meu tipo, eu supus que fosse o 2, já que o tipo 1 com certeza não posso ser.
Logo, Rick e eu seríamos o mesmo tipo, o tipo 2. E, consequentemente, Ana Luíza seria albina também. E assim passei 9 meses chamando a menina de branquela...
Então eis que, no momento do expulsivo do parto, a médica, sentada aos meus pés, diz: estou vendo um cabelinho escuro; acho que ela não é albina não! E depois de alguma força, certo suor e muito grito escandaloso, rs, aparece a minha branquela não branquela. Minha Ana Luíza tem o cabelo castanho claro e, pelo menos até agora, os olhos azuis escuros.
Fiquei surpresa.
A questão de ter filhos albinos ou não sempre gerou muita discussão e polêmica no nosso grupo de albinos no Face. E eu sempre entendi e respeitei todas opiniões, inclusive aquelas de albinos que não queriam ter filhos albinos, justamente porque compreendia as razões deles. Só quem sofreu na pele com o sol e com o preconceito sabe como são as coisas.
Meu pai, aliás, era um desses albinos com tal opinião, tanto que, quando soube que eu estava namorando um albino, me disse que seria uma pena porque então eu não poderia ter filhos...
Também não fiquei chateada e também compreendi. Conforme já mencionei várias vezes, a experiência de infância albina do meu pai não foi das melhores...
Porém eu nunca havia pensado em me impor esta barreira. Eu, por me sentir uma pessoa realizada pessoal e profissionalmente e feliz "apesar de albina" (?!), não via porque impedir o nascimento de outro ser que seria como eu. Se o fizesse, estaria implicitamente dizendo que minha vida não era boa no fim das contas. E, como Rick pensava parecido, mantivemos a decisão de ter um filho independentemente do resultado do mapeamento genético feito na Santa Casa.
Acabou que a gestação chegou antes do resultado do mapeamento genético do Rick; e que o meu nem saiu. E assim passamos a gestação com a certeza de que viria uma albininha.
E no meio da gestação eu comecei a ter medo por ela... Medo de como seria na escola; medo de como seria na rua; medo de como eu ajudaria ela a lidar com tudo aquilo que um dia lidei. Não cheguei a me arrepender, mas comecei a temer. Sendo a existência dela já uma certeza, começou a me dar medo imaginar o que ela poderia sofrer.
E eis que agora eu me deparo justamente com outro medo, o medo de que ela ouça algum dia algum comentário idiota pelo fato de não ser albina quando os pais dela o são; medo de que um dia ela duvide de que é nossa filhinha de verdade. E que isso também a faça sofrer.
Enfim, acho que não existe escapatória: os pais sempre terão medo de que seus filhos sofram, porém nunca conseguirão controlar todas as variáveis para evitar todas possibilidades de sofrimento. (E foi justamente pensar assim que me fez não querer controlar a probabilidade de ter um filho albino).
Pelo menos me alivia saber que provavelmente ela terá uma visão normal.
Com a ignorância das pessoas nós teríamos que lidar de qualquer jeito mesmo...
Quanto a mim, agora acho que não sou nem o tipo 1 e nem o tipo 2. Devo ser um dos outros tipos menos comuns de albinismo, para os quais o projeto da Santa Casa não faz a pesquisa de genes...
Em resumo: eu, que era a pessoa mais curiosa e desesperada para saber meu tipo de albinismo, continuarei sem saber. Não sei o que sou; só sei o que não sou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário