terça-feira, 29 de outubro de 2019

FALTA DE EMPATIA OU DE RACIOCÍNIO?

Penso que tudo o que fazemos, devemos ao menos nos esforçar para tentar fazer do melhor modo possível. Por isso, mesmo se for para fazer algo errado, acho que a pessoa tem que fazer bem feito! Por exemplo: se for para ficar reparando na vida alheia, pelo menos, além de reparar, reflita e, ao invés de tirar apenas uma conclusão, que geralmente é a mais fácil e mais condenatória possível, faça um exercício de raciocínio e elenque diversas e variadas possibilidades. Pelo menos aí o fato de reparar na vida alheia se torna algo produtivo, tipo uma palavra cruzada ou qualquer outro exercício de estímulo mental...
Hoje uma situação cotidiana e corriqueira, que de fato tem se tornado cotidiana e corriqueira, me fez pensar se a falta de empatia se deve à falta de esforço em querer pensar ou à incapacidade mesmo de o fazer... E não é que eu esteja chamando as pessoas de burras não; é que somos educados para absorvermos o suficiente para termos algum resultado esperado, como passar na prova, passar no vestibular; não somos convidados a refletir. Criticamos sem de fato desenvolvermos o raciocínio crítico.
Todo dia pego ônibus para levar Analu à escola. É apenas um ponto, mas o caminho é subida e, como eu não pago mesmo a passagem, já que tenho bilhete especial de deficiente, literalmente "não me custa nada". Mas todo dia, absolutamente todo dia, tem alguém no ônibus para reparar que o trajeto que farei dentro do ônibus é curto, querer questionar se é isso mesmo o que quero fazer (entrar numa parada e descer na seguinte) e muitas vezes até já condenar minha opção (que absurdo gastar dinheiro para não andar um ponto). 
Já me causa estranheza a pessoa reparar quando entrei e quando saí do ônibus. Em ter reparado, me soa também enigmático a pessoa gastar tempo e energia no tema irrelevante. Mas, já que quer o fazer, por que então não o faz com excelência? A pessoa poderia aproveitar a oportunidade e usar como distração mental ficar (internamente, para si, pelo amor de Deus) elencando as possíveis razões que poderiam fazer alguém entrar no ônibus numa parada para descer em outra, com uma criança pequena, para além do fato de ela possivelmente ser uma pessoa preguiçosa e perdulária, ou estar equivocada, ou ser ums tapada.
A criança talvez tenha uma dificuldade de mobilidade... A mãe, embora vá gastar com o ônibus para um trajeto tão curto, talvez deixe a criança na escola em tempo de pegar a condução de novo usando a integração, ou seja, sem pagar nada, para ir ao trabalho. A mãe e a filha talvez estejam muito atrasadas no dia e tenham pressa... A mãe talvez o faça porque não paga mesmo passagem...A mãe leva a criança de ônibus em vez de ir andando porque a criança gosta e acha que é um passeio...
São tantas respostas possíveis para uma pergunta que nem deveria existir!
Alguns me dirão que eu não deveria me irritar com coisa tão pequena e a esses eu digo que a questão não é a coisa em si, e sim o que ela representa. Há um mundo de pequenas coisas dessa mesma espécie ocorrendo o tempo todo: reparar na vida alheia, sobre temas que não fazem diferença alguma na nossa vida, fazer uma análise superficial do fato e desprovida do conhecimento das variáveis necessárias, chegando-se a um veredicto, geralmente depreciativo, recriminativo, desprovido de qualquer profundidade e, por isso, potencialmente equivocado.
Não é uma coisa pequena e irrelevante. É a postura que temos como sociedade. Buscamos sempre a resposta mais rápida, fácil, que costuma ser a mais feia também. Gostamos de esticar o pescoço para espiar a vida alheia, mas não de verdadeiramente nos debruçarmos sobre o tema. 
Não conseguimos fazer o exercício de refletir e enumerar diversas interpretações para um mesmo fato, que dirá olhar um mesmo ponto por vários ângulos. Como exercitar empatia então? E como ter uma sociedade saudável sem empatia?

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