Eu sou filha única. Meu pai é servidor público.
Eu sempre pensei que, se tivesse filho, teria um só. Aliás, uma filha. Loira, taurina e chamada Ana Luíza. E eu seria servidora pública.
Basciamente: repetindo o modelo.... Na verdade querendo repetir apenas parte dele, a parte que eu considerei correta.
Minha infância foi muito feliz, sem solidão, já que eu tinha muitos amiguinhos, e sem grandes perrengues financeiros, afinal meu pai tinha segurança no emprego e, embora não ganhasse grandes coisas, só tinha uma criança para sustentar, então podia me dar/proporcionar várias coisas.
Já minha adolescência foi uma desgraça, especialmente do ponto de vista financeiro, já que meus pais se divorciaram e aí meu pai arranjou outra família pra sustentar.
A soma das duas experiências, creio, me transformou numa pessoa com a ideia fixa de ter apenas um filho, para que eu pudesse me dedicar inteiramente e exclusivamente e para que nada nunca lhe faltasse. E, na minha concepção de quem sempre foi classe média, não podem faltar pro filho coisas que, na verdade, não são essenciais e imprescindíveis. Não podem faltar passeios, não podem faltar cursos, não podem faltar viagens, cada um tem que ter suas coisas, sua privacidade, seu quarto. Enfim, não pode faltar tudo que eu tinha até o "advento" do divórcio e que abruptamente foi tirado de mim. Tudo que é mais fácil prover para um, do que para dois.
E eis que, de repente, eu me descubro novamente grávida. AnaLu não será filha única. E toda minha concepção de como é a vida que tenho que dar pra minha filha ficou abalada. Todos os planos, que já estavam prontinhos desde sempre, talvez tenham que ser alterados, adiados ou esquecidos.
Sempre tentei ser responsável e sempre gostei de previsibilidade. Nunca deixei que decisões importantes na minha vida fossem tomadas pelo acaso. Não sou do tipo que deixa a vida fluindo pra qualquer lado e que depois chama as consequências de vontade divina. Uma gravidez inesperada não combina comigo.
Aliás, sempre achei absurdo gravidez inesperada. Afinal, gravidez é consequência de sexo sem prevenção adequada, não é algo fora do nosso controle.
Agora acabei de descobri o que eu já sabia: mesmo se prevenindo, se não fizer direito e com rigor, uma única chance vira oportunidade para ser surpreendida. Estranha estatística essa...
Eu fui tão leviana, mas tão leviana, que não combina comigo. Então fico pensando se não foi ato falho, se não foi o meu incosciente (subconsciente?) que boicotou a cartela do anticoncepcional e se lá nas entranhas da minha alma eu não tenha decidido ter mais um bebê.
Essa é uma ideia que me conforta, assim como á maioria das pessoas conforta a ideia da vontade divina. E, cá entre nós, tanto uma como outra pode bem ser verdade, ou pode bem ser mentira.
O motivo não importa, porque o passado agora não faz diferença. O lance é o futuro, esse futuro que eu nunca tinha imaginado e que ainda não consigo visualizar.
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