Nesse final de semana que passou fui para a cidade de Americana, no interior paulista, próxima à Campinas. Não, não foi uma escolha turística para o feriado, e sim uma viagem concursística: acompanhar o cônjuge em sua iniciação no fantástico mundo dos concurseiros.
Lá na cidade fui acometida pela dúvida que titula este post: quem nasce em Americana é... ? Não sabia o que era; só sabia o que definitivamente não era: americano. Afinal de contas, embora todos que nasceram na cidade de Americana, assim como também nós e mais um punhado de gente sejamos todos americanos, os "estados unidenses" (como sabiamente os chamam nossos vizinhos sulamericanos) monopolizaram tal denominação...
Meu bom senso supunha que a denominação para os naturais de Americana fosse, naturalmente, americanense. Porém, como não tenho uma auto estima tão elevada assim a ponto de tomar como verdade inexorável aquilo que suponho, consultei o oráculo dos internautas (vulgo Google) e constatei que era isso mesmo.
O problema de se ir no Google procurar alguma coisa é que se acha muitas outras... Sabem como é, um link leva a outro e, como diz o ditado, "quem procura, acha". E de clique em clique acabei descobrindo que anda rolando um jogo de empurra empurra entre as prefeituras de Americana e Campinas... Empurra empurra de gente que ninguém quer, e que ninguém mais nota que é gente...Enquanto os americanos se preocupam com a entrada clandestina de mexicanos por suas fronteiras, os americanenses são acusados de mandarem seus mendigos na surdina para terras campineiras.
Pois é, amigos, exportação de mendigos. O caso foi parar até no Ministério Público, por denúnica da Prefeitura de Campinas contra a de Americana.
E, nessa Guerra dos Esfarrapados - na qual os esfarrapados são as armas e não os guerreiros -, Americana também tem suas reclamações contra a vizinha: alega que uma certa lei que entrou em vigor por lá e que proibe a mendicância ou a comercialização de mercadorias nos faróis vai resultar em migração dos mendigos "desempregados" por tal lei para sua cidade.
Quando eu morava em São José dos Campos, que, assim como Americana, tinha um prefeito psdbista que estava reformando e enfeitando toda a cidade, também já havia ouvido dizer que a exportação de mendigos fazia parte da política de melhoria estrutural e estética do ambiente... Tanto que, em 2001, Jacareí acusou São José do mesmo que hoje Campinas acusa Americana.
Não sei se faz parte da política do PSDB, de qualquer prefeito independentemente do partido ou desses prefeitos especificamente mandar os mendigos embora... Não sei se esse embora é de volta para suas terras de origem (nesse caso, quem nasce em americana, definitivamente, além de não ser americano, também não pode ser mendigo) ou é simplesmente despachar em outras terras longe de sua responsabilidade e dos olhos eleitores.
Nem sei se as acusações procedem. O que sei é que, como diz outro velho ditado, "onde tem fumaça, tem fogo", nem que seja uma bituquinha de cigarro... Pode ser que a coisa se prove, pode ser que fique apenas como mais uma "lenda urbana". Entretanto, só o fato de tais acusações nos parecerem tão verossímeis (e ao MP também, visto que acolheu a denúnica) já é bastante triste.
As cidades podem até esconder a sujeira embaixo do tapete, mandar aquela realidade que é feia e desagradável de se ver para longe, todavia ela não vai deixar de existir. A realidade vai bater à porta de alguém... Ou dar com a cara na porta em outras cidades... Em geral numa cidade grande e desordenada, desordenada o bastante para o prefeito não ter como organizar uma exportação de mendigos.
Por isso, enquanto as outras cidades vivem a fantasia de serem bonitas e perfeitas, São Paulo vê e vive a dura realidade... Aqui fica evidente o resultado do jogo de empurra dos políticos brasileiros... O problema deixa de ser de cada um deles, mas continua sendo de todo mundo.
Não existem mendigos americanenses nem joseenses? Pois existem muitos mendigos brasileiros.
http://www.maisinterior.com.br/v4_ler.asp?id=126566/Caso-de-exporta%E7%E3o-de-mendigos-vai-parar-no-MP-
http://www.oliberalnet.com.br/cadernos/cidades_ver.asp?c=03A9A999E49
http://jornal.valeparaibano.com.br/2001/10/21/jac/mora1.html
Numa discussão um pouco mais aprofundada poderia se chegar a conclusão que o problema está na existência das fronteiras. Baseado em seu post poderia ser dito que ao invés de tentar tirar "pessoas indesejáveis" de um território, faria-se com que a pessoa passasse a ser desejável em qualquer lugar, como qualquer outro cidadão do mundo. Mas é uma opinião que não poderia ser defendida em um comentário só ;)
ResponderExcluirÉ, como te disse no msn, tento ser sucinta nos posts pra não me tornar enfadonha. Assim, prezo pela boa conservação de vossos teclados, que estragariam se fossem babados, rs. Entretanto sempre sinto que a coisa ficou superficial ao terminar de escrever. Ok, a idéia é fazer um post somente, não um livro.
ResponderExcluirBom, fazendo uma conclusão bem resumida de toda discussão que poderia resultar do seu comentário, não acho que o problema esteja na existência das fronteiras. Bom, na verdade até está, porém este é um problema insolúvel. Não vejo como administrar um território imenso (como o Brasil, ou como a Terra, se vc quiser radicalizar) sem dividí-lo em unidades administrativas menores.
Nessee caso, resta-nos apenas a outra solução, que é converter as pessoas indesejáveis em desejáveis. A grande pergunta que se faz é: como?
E o grande problema que temos é que acho que os políticos não se fazem essa pergunta...
Acho que você faz bem em usar seus posts para expressar suas opiniões sem impor uma verdade absoluta e incontestável. São suficientes para instigar. Já está de bom tamanho. O problema das fronteiras como são hoje é a concorrência em vez da sinergia. O meu território tem que ser melhor que o seu. Quando envolve partidos com visões políticas divergentes, a coisa piora.
ResponderExcluirBi: obrigada! É isso aí, tem que me elogiar! Rs
ResponderExcluirRick: Não consigo imaginar como poderia ser diferente, dada a natureza humana hobbesiana na qual desconfortavelmente acredito...
Mas acho mais divertido (?) discutirmos esse assunto pessoalmente, comendo e bebendo. Meus dedinhos estão cansados, rs.
Se discutíssemos pessoalmente, você perceberia que eu não sei o que é hobbesiana...
ResponderExcluirhttp://tinyurl.com/5u6ombe
Vai no google, oras! hahaha!
ResponderExcluirHobbesiana eu inventei... Vem de HOBBES, um carinha aí que estudei em sociologia, rs:
http://www.arqnet.pt/portal/teoria/leviata.html