Eu tenho um parente arrogante, petulante, explosivo, egoísta, que gosta de brigar e que nas brigas gosta de humilhar as pessoas. Na verdade eu tenho mais de um parente assim, embora haja um que é mais "assim" que os outros. São pessoas com atitudes que considero muito escrotas e que em geral dão asco em mim.
Houve uma vez em que ouvi o "mais mais" dizer, com sinceridade dolorida, que se odiava quando fazia aquelas coisas e que desejava ser outra pessoa, mas não conseguia. Aquilo me encheu de piedade infinita. Que dor se saber tão errado ao ponto de querer ser outra pessoa. E que dor maior ainda em saber não podê-lo ser.
Acontece que, ao que parece, há um pouco dele - e dos outros parentes - em mim.
Quando ouvi aquilo e experimentei aquela empatia piedosa eu era uma adolescente e, prepotente como é de costume da idade, minha compaixão era acompanhada de um sentimento de superioridade. Como todo adolescente, eu me sentia se encaixe naquele contexto familiar, um universo a parte.
E toda aquela minha compaixão durou pouco. Durou tanto quanto aquela lucidez de auto percepção do meu parente, a bem da verdade.
Mal sabia aquela adolescente que na vida adulta experimentaria tantas vezes a mesma sensação. E numa coisa pelo menos aquela adolescente tinha razão: dói mesmo.
Dói perceber, pensar, sentir e agir de forma alterada com frequência. Dói saber que suas ações ou reações são desproporcionais e intempestivas.
Dói, enfim, se perceber uma pessoa escrotinha.
E, pior do que escrotinha, uma escrotinha incompetente, frustrada em todas suas reiteradas tentativas - pois, acreditem, ela tenta - de ser diferente.
Perto do que eu escrevo agora tudo que escrevi antes parece hipocrisia. Mas não é. Eu sou sim uma pessoa, via de regra, feliz. E isso tem a ver com uma das minhas poucas qualidades, que é a de tentar valorizar as coisas boas que aparecem pelo meu caminho e ser feliz com o que tenho.
E por isso tenho que ser feliz comigo desse jeito que sou, afinal é "o que tem para hoje". E, considerando a minha total incompetência em evoluir, é o que tem pelo resto da vida.
Mas se eu pudesse, sim, eu gostaria de ser outra pessoa. Não de estar em outro lugar, de ter outro marido, outros amigos, outros empregos - outra família com certeza sim -, mas de ter outra personalidade. Não de ser outra por fora, ao contrário do que sentem vários albinos, mas de ser outra por dentro.
E eu tinha razão, dói mesmo, e não é pouco, querer ser uma pessoa diferente.
Infelizmente o reconhecimento e o verdadeiro arrependimento não implicam em imediata evolução e não evitam a reincidência.
De qualquer forma, não quero que sintam por mim o que senti pelo meu parente. Que fique claro que este é um desabafo de autodecepção, não de autopiedade.
Daqui a pouco passa, porque não tenho vocação pra tristeza. E daqui a pouco volta, porque este sentimento é recorrente, como o são meus erros.
Só quero deixar registrada minha auto insatisfação, para que fique claro para quem acha que me sinto superior sob qualquer aspecto e em qualquer momento, o que é justificado pela minha postura impertinente, que eu, no fundo, não me acho nada e em nada melhor que os outros. Estou longe de ser melhor que muita gente, sou pior em muitos pontos e tenho plena consciência disso, o que talvez já me seja um bom castigo.
Enfim, haja reencarnação para mim... Ainda terei que conviver muito comigo.
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